
UMA ENTREGA ESPECIAL
HIS ESPECIAL DELIVERY

 

Berlinda Barnes




Argumento:
Em seu carro, a ponto de dar a luz, Sara Jamison estava se desesperada... at que apareceu Cal Tucker. Como uma viso, o homem vestido de smoking conseguiu tranqiliz-la, e Sara lhe confiou o mais precioso de sua vida...
Quando Cal ofereceu sua casa a ela e a sua recm-nascida filha, Sara aceitou o oferecimento. Mas quando lhe ofereceu seu sobrenome, hesitou. Por que aquele homem to atraente e generoso acreditava que no merecia encontrar o amor? E como poderia ela convenc-lo do contrrio?





Captulo 1

Cal Tucker tinha chegado ao altar, mas tinha um pequeno problema: faltava-lhe a noiva. As velas seguiam apagadas, seu futuro indeciso pela repentina mudana de opinio de sua prometida.
Cal arrancou a flor da lapela e a atirou ao cho antes de percorrer o solitrio corredor da igreja. 
-Parece que no me quer -murmurou.
James Scott, seu scio e melhor amigo, esperava apoiado na porta.
-No tinha por que ter passado este momento mau. 
Embora tinha sido incmodo suportar os rostos de compaixo de seus amigos e familiares, Cal no podia partir sem dar explicaes.
-Era meu casamento e minha responsabilidade. 
-Sabe por que Tiffany no apareceu?
Cal colocou o dedo no pescoo da camisa, que durante a ltima hora lhe tinha parecido uma soga. 
-Porque lhe disse que no pensava dirigir a empresa de meu pai.
James lanou um assobio.
-Para Tiffany a posio social  o mais importante.
Cal franziu o cenho, perguntando-se quando James havia se dado conta de algo que ele tinha descoberto recentemente.
-Mas para mim no. Ontem  noite quando o disse, deu-me um ultimato.
-Ento, sabia que ela no ia vir?
-J conhece Tiffany. Muda de opinio constantemente -respondeu Cal, passando a mo pelo cabelo -. Achas que eu estaria aqui se tivesse pensado que ela no ia aparecer?
-E o que vais fazer?
-Nada -Cal encolheu-se de ombros. Perguntava-se por que no tinha visto antes quo diferentes eram Tiffany e ele-. Terminou-se.
-Ests seguro? -perguntou James.
Cal no sentia pena por ter perdido Tiffany, mas seu orgulho tinha ficado prejudicado.
-Sim, estou seguro.
Fosse o que fosse o que sentia pela Tiffany, tinha morrido. S ento Cal pde admitir que nunca a tinha amado. E tampouco Tiffany tinha amado a ele. De fato, Cal duvidava que o to usado e levado amor existisse.
No lhe importava que Tiffany o tivesse deixado plantado no altar e estava farto de fazer o que todo mundo esperava que fizesse. Terminou-se. Desde aquele momento, faria o que tivesse vontade. No necessitava a ningum, nem queria a ningum.
James fez um gesto com a mo.
-Os jornalistas tm a sua famlia encurralada. Cal no se surpreendeu. Seu pai era um dos empresrios mais importantes de Dallas e sua me estava acostumada a aparecer nas pginas sociais.
-No se preocupe. Eles sabero como sair do atoleiro.
Como sempre, as cmeras tinham eleito a seus pais antes que a ele.
-Sai pela parte de trs. Eu te esperarei na caminhonete -sorriu James-. Venha, convido a uma cerveja. Talvez temos sorte e encontramos um par das gmeas.
Cal negou com a cabea.
-No quero saber nada de mulheres.
-J veremos o que agenta.
-Srio, no tenho interesse. Todas as mulheres so iguais, altas, baixas, morenas ou loiras -disse Cal-. No importa. No do mais que problemas.
James olhou a seu amigo com um sorriso pormenorizado.
-Isso passar.
-No, srio. No necessito a nenhuma mulher.
-Certo, o que voc dizer. Encontraremo-nos no Bull Pen -despediu-se James.
Cal saiu da igreja com as mos nos bolsos. A grama ressecada rangia sob seus ps e umas ameaadoras nuvens cinzas cobriam o cu vespertino.
Ia perguntando-se por que tinha querido casar-se com Tiffany. Embora o desejo e os interesses sociais no eram as melhores razes, seus prprios pais tinham apoiado seu matrimnio. E, aparentemente, ele tinha decidido fazer o mesmo. Mas j no lhe parecia o suficiente.
Decidido a ignorar o ar gelado de fevereiro e o golpe que tinha recebido seu orgulho masculino, seguiu caminhando.
S tinha percorrido duas quadras quando o rudo de uns pneus o fez parar-se em seco. Um carro marrom com um farol quebrado se dirigia para ele a toda velocidade, como se tivesse perdido o controle. Cal se separou de um salto e caiu rodando sobre a calada.
Uns segundos depois, levantou-se e lanou uma maldio ao ver que quem dirigia era uma mulher.


Quando a dor desapareceu, Sara Jamison olhou atravs do pra-brisa ao homem que se levantava do cho. Tinha a expresso de algum que ia pegar-se a tapas com quem tinha estado a ponto de atropel-lo, mas como a condutora era uma mulher grvida a ponto de dar a luz, Sara esperou que tomasse com calma.
O homem, vestido de smoking, aproximou-se da janela com um brilho de fria em seus olhos cinzas.
-Mas que demnios ests fazendo?
-Sinto muito.
-Por que no dirige com mais cuidado?
-Olhe, sinto muito... -uma nova contrao fez com que Sara no pudesse terminar a frase. Depois de trs falsos alarmes durante a ltima semana, negou-se a ir ao hospital at que estivesse completamente segura, mas naquele momento lamentava ter esperado tanto. Sara olhou seu relgio para comprovar quanto tempo tinha passado desde a ltima contrao.
O homem se inclinou sobre a janela e ps as mos sobre seu abdomem inchado.
-Ests em trabalho de parto?
-Sim -conseguiu dizer Sara, segurando com fora o volante.
O homem de smoking parecia incmodo, como se aquilo fosse uma molstia para ele. Embora Sara tampouco desejava sua ajuda.
-Espere aqui. Vou chamar a uma ambulncia. 
Sara segurou sua mo quando ele ia dar a volta.
-No, deixe. J me arrumarei sozinha. 
Ele a olhou, surpreso.
-Mas se estavas a ponto de me atropelar. 
-A ponto. Mas no o atropelei.
No rosto do homem apareceu algo parecido a um sorriso.
-Dada sua condio, no deveria seguir dirigindo.
-Se minha av podia trabalhar no campo estando em trabalho de parto, ter a seu filho e depois ir fazer o jantar, eu posso chegar ao hospital -disse ela, muito decidida-. Obrigado, mas tenho que ir. 
Sara tentou subir a janela, mas recordou que estava quebrada. Nesse momento, sobreveio-lhe outra contrao e teve que morder os lbios. 
-No vai a nenhuma parte -disse o estranho ento abrindo a porta.
-Estou bem -tentou dizer Sara-. Passar em seguida.
Mas sabia que no era certo. E se perguntava quanto tempo poderia agentar.
-Olhe, senhora, no tenho vontade de discutir. Tive um mau dia.
-Pode ir embora. No necessito de sua ajuda.
-Essa criana est a ponto de nascer e voc no vai seguir dirigindo -replicou ele.
-Mas tenho que ir ao hospital...
-Ento eu terei que lev-la.
O homem a tirou do carro nos braos como se no pesasse mais que uma pluma e Sara no teve foras para protestar. Apesar de suas maneiras rudes, ter a algum perto a tranqilizava um pouco.
E se sentia segura em seus braos, muito mais segura do que era sensato. Sara sentia um inexplicvel desejo de apoiar o rosto sobre aqueles poderosos ombros e deixar que ele se encarregasse de tudo. Mas era absurdo, ela nunca voltaria a confiar em outro homem.
Sara se apartou o cabelo do rosto, confusa por sua reao ante aquele desconhecido.
-Todo mundo sabe que as principiantes demoram muito, assim no passar nada. Me deixe no cho e eu mesma irei ao hospital.
O olhar que o estranho lanou sobre ela dissolveu qualquer esperana de que a soltasse.
-Eu disse que vou te levar ao hospital -insistiu ele. Embora seu tom era impaciente, aquelas mos grandes e fortes a tranqilizavam. Nesse momento voltou a sentir outra contrao e fechou os olhos, enterrando o rosto em seu ombro-. Relaxe e confie em mim, no lhe vai acontecer nada.
-Sim -murmurou.
No podia confiar nele porque o ltimo homem no qual tinha acreditado a tinha abandonado, deixando-a ferida... e grvida.
Sara fechou os olhos para evitar as lgrimas, dizendo-se a si mesmo que devia ser forte.
-J viste nascer algum potro? -perguntou ele ento-. Nascem de forma natural e a me no necessita de nenhum tipo de ajuda. A natureza se encarrega de tudo -acrescentou, acariciando brandamente suas costas-. Terminou a contrao?
Sara abriu os olhos e se deu conta de que a dor tinha desaparecido. Sua rouca voz masculina a tinha feito esquecer da dor que parecia parti-la em dois.
-Sim, obrigado. Pode me deixar no cho.
-Sim -disse ele, sem solt-la.
Depois de dar a volta ao carro, segurou-a com uma s mo e abriu a porta com a outra.
-Espere, vou vomitar -murmurou. Sara fechou os olhos e respirou profundamente-. Certo. Acredito que passou.
-Muito bem. Ento, vamos ao hospital.
Aquele estranho tinha aparecido em sua vida e, de repente, tomava as rdeas, como tinha feito o pai de seu filho antes de abandon-la.
-Espere -disse ento Sara-. No o conheo. No pode subir em meu carro.
-No sou um delinqente. Sou o doutor Cal Tucker. Quer que lhe mostre minha identidade? -perguntou ele, impaciente. Sara negou com a cabea. Era mdico, graas a Deus, pensou. Ele a deixou sobre o assento e lhe colocou o cinto de segurana-. Que tal ests? -perguntou. Seus rostos estavam muito perto, quase roando-se.
-Bem -comeou a dizer Sara, mas teve que segurar o ventre quando chegou uma nova contrao.
Cal fechou a porta e deu a volta ao carro. Agentando a dor, ela o observou jogar o assento para trs para poder colocar suas longussimas pernas.
-A que hospital vamos?
-Ao hospital Mercy -respondeu Sara quando a contrao terminou.
Depois de duas tentativas, ele conseguiu aquela lata velha funcionar. Conduzia em silncio, com movimentos seguros e isso a tranqilizava.
No podia culpar a Cal Tucker por sua situao, nem de que Gary, seu noivo, houvesse-lhe dito que abortasse... nem de que a tivesse abandonado quando tinha se negado.
-Tens frio? -perguntou Cal, subindo o aquecimento.
Sara tentou separar de sua mente as desagradveis lembranas e se concentrou no homem que a levava ao hospital.
-De onde vem vestido assim?
-De um casamento -respondeu ele, sem olh-la. 
-Casamento de quem?
Cal tirou a gravata borboleta com uma mo e a guardou em um bolso do casaco.
-O meu.
-Lamento ter que lhe dizer isto, doutor Tucker, mas parece que voc perdeu a sua noiva -tentou brincar Sara.
O olhar que Cal lanou sobre ela poderia rivalizar com o sol do Texas em agosto.
-Encontra-se melhor?
-Um pouco. O que aconteceu?
Cal apertou o volante com fora. 
-Uma mudana de planos na ltima hora.
Sara olhou pela janela. Tinha pensado que o doutor Tucker parecia diferente de outros homens, mas no podia deixar se enganar por um rosto bonito.
-Idia sua?
Cal se aproximava de um semforo em vermelho e depois de comprovar que no havia perigo, o passou. 
-No.
Nesse momento, comeou outra contrao. Cada vez eram mais seguidas.
-Mais depressa. Por favor, v mais depressa.
Cal lhe ps as mos sobre o ventre e Sara observou os longos dedos do homem.
-Segure-se -disse ele ento, pisando no acelerador. 
Sara no disse nada. Obviamente, ele sabia o que estava fazendo. Ou isso esperava. A idia de depender de um homem a assustava, mas no tinha escolha. Aquele homem era mdico e, se no chegavam a tempo ao hospital, teria que ajud-la a dar a luz... no carro.


-Estamos chegando -disse Cal, segurando uma maldio. O ltimo que gostaria de era estar metido naquela confuso, mas no podia deixar sozinha a uma mulher a ponto de dar a luz.
Ela lanou um gemido. 
-Pare. No posso mais.
-Como te chamas? -perguntou Cal ento, tocando-a.
-Sara Jamison.
-Relaxe, Sara. Estamos chegando.
-No posso relaxar -gemeu ela-. O beb est a ponto de sair.
-No pode ter-lo no carro. Espera um momento, no empurre.
Sara apertou as pernas, fazendo um gesto de dor.
-No posso esperar -murmurou, apertando os dentes-. No posso.
Cal parou no beira da estrada.
-Vou colocar-te no assento detrs -disse, saindo do carro. Seu aroma o envolveu quando a tomou nos braos e Cal se perguntou bobamente como uma mulher podia cheirar to bem naquela situao-. Melhor? -perguntou, quando esteve deitada no assento traseiro.
Ela o olhou com os olhos muito abertos, aterrada, e Cal se deu conta de que queria ajud-la, queria proteg-la. E isso o surpreendia.
Sara se segurou ao assento e comeou a gritar. Cal olhou seu relgio. Naquele momento, deveria estar brindando por seu futuro com Tiffany em taas de cristal da Bomia. Mas decidiu no pensar nisso enquanto tirava o casaco e subia as mangas da camisa.
-Me alegro muito de que seja mdico, Cal, mas a verdade  que me di tanto que me importaria se fosses um encanador.
-Me alegro, porque sou veterinrio -sorriu ele.
Sara apertou sua mo com fora.
-Este no  momento para brincadeiras.
-No estou de brincadeira.
Ela o olhou, horrorizada.
-Sabe o que tem que fazer?
-Claro -tranqilizou-a ele, apartando uma mecha de cabelo de seu rosto. Aquele era o ltimo lugar no qual desejava estar, mas que melhor forma de terminar o pior dia de sua vida que em meio da rua, com uma mulher a ponto de dar a luz?
-J fizeste isto antes?
-No se preocupe, tudo vai sair bem.
Sua confiana pareceu aliviar um pouco a angstia de Sara.
-No tenho escolha -murmurou.
-Tenho que comprovar a posio do beb.
Ela ficou rubra, mas assentiu com a cabea. A pobre garota devia estar aterrorizada, mas mantinha a calma, algo que sua noiva... ex-noiva no teria sido capaz de fazer. Cal tinha que admitir que admirava sua coragem.
Depois de olhar ao redor para comprovar que no havia espectadores, Cal apartou o que lhe estorvava e comprovou que Sara tinha razo. A cabea do beb estava aparecendo.
Nesse momento, percebeu a enormidade da situao. Ele estava acostumado a atender os partos das guas, mas aquilo no era um potro, era um ser humano. O beb de Sara tinha decidido nascer ali mesmo, agradasse a ele ou no.
-O que v? -perguntou Sara ento.
Cal teve que conter uma gargalhada nervosa. Duvidava que ela apreciasse seu senso de humor naquele momento.
-A cabea do beb.
-Da menina.
-Terei que ver o outro lado para estar seguro disso -sorriu ele.
-Pois acredito que est a ponto de v-lo -gemeu Sara, empurrando.
-Empurra um pouco mais. J quase est feito-disse ele, segurando a cabecinha.
Sara lanou um grito de agonia quando saam os diminutos ombros, segurando-se ao assento. Uns segundos depois, Cal tinha  menina nos braos e comprovava ansiosamente que seu nariz e sua boquinha estavam limpas e podia respirar.
Logo os gritos da recm-nascida se mesclaram com as lgrimas de sua me. Ao contrrio que os silenciosos nascimentos de potros aos que estava acostumado, a msica da vida pareceu banhar a Cal naquele momento e quando olhou o pequeno milagre que tinha nos braos, emocionou-se. Tinha visto centenas de criaturas recm-nascidas antes, mas nada to pequeno e to frgil. Por que ter aquela coisinha nos braos fazia que lhe resultasse difcil respirar?
Nesse momento, a menina abriu os olhinhos e o olhou. E Cal sentiu como se um cavalo o tivesse escoiceado.
Havia trazido uma menina ao mundo.
-O que ocorre? -escutou a voz assustada de Sara.
Tentando segurar ao escorregadio beb entre as mos, Cal tomou o casaco e a envolveu nele. 
-Nada.  uma menina.
-Est bem?
- perfeita -respondeu ele com voz rouca, olhando a mo diminuta daquele novo ser humano.
Depois de dar a menina a Sara, tirou o cordo de um sapato e atou o cordo umbilical. Deixaria que fosse o mdico que cortasse o lao que atava a me e filha.
Cal olhou a Sara com sua filha nos braos. Ento soube que nunca esqueceria a aquela menina nem o indubitvel amor que se refletia no rosto da mulher. Possivelmente o amor existia depois de tudo... ao menos, entre uma me e seu filho.
Aquela me e aquele filho.
Sara sorriu, acariciando a carinha da menina. 
-Cal, qual  seu nome completo? 
-Calvin LeeTucker -respondeu ele. 
-Ento, chamar-se Jessica Lee.
-No tem que fazer isso -murmurou ele, com um n na garganta.
-Mas quero faz-lo.
- um nome muito comprido para uma menina to pequena -sorriu Cal-. Poderia cham-la de Jessie.
-Eu gosto mais de Jessica.
Cal se encolheu de ombros. A menina estava bem. Sara estava bem. Isso era o importante.
Enquanto as observava, um sentimento protetor o invadiu.
-Ser melhor irmos ao hospital.
Seus olhares se encontraram nesse momento.
-Obrigado por tudo, Cal -disse Sara.
Surpreso pela ternura que aquela mulher despertava nele, Cal fechou a porta do carro e se colocou atrs do volante.
O que lhe estava passando era lgico. Nem todos os dias se trazia uma criana ao mundo no meio da rua. E depois de que sua noiva o deixasse plantado no altar. Enquanto arrancava o carro, Cal escutava  Sara murmurar coisas  menina em voz baixa. Aquele som tocava seu corao, despertando algo que nunca antes havia sentido. Mas seu trabalho teria terminado quando as deixasse no hospital.
E depois iria para casa. Sozinho.



Captulo 2

O aroma de anti-sptico envolvia Cal enquanto passeava pelo corredor do hospital. Estava desejando que os mdicos dissessem que tanto a me como a menina estavam bem para poder partir.
Uma enfermeira se aproximou ento, sorridente. Em outro momento, Cal lhe haveria devolvido o sorriso, mas no podia tirar da cabea os olhos verdes de Sara.
A enfermeira assinalou um escritrio no outro lado do corredor.
-Tens que me acompanhar.
-Para que?
-Necessito de seus dados.
-Eu no tenho nada que ver com...
-Este  meu primeiro dia de trabalho -interrompeu-o a jovem, um pouco nervosa-. Sente-se, por favor. Como se chama?
-Calvin Lee Tucker.
Outra enfermeira passou por diante do escritrio com a menina de Sara nos braos.
-Para onde levam a Jessie?
-Provavelmente vo examinar-la. J estivestes antes neste hospital?
-Duas vezes. Um cavalo me quebrou trs costelas faz um ano -respondeu Cal, passando o dedo pela cicatriz do queixo, uma lembrana dos dias nos quais montava cavalos selvagens para atrair a ateno de seus pais-. E faz dez anos tiveram que me dar vrios pontos aqui.
-Seu endereo  Willow Grove, Texas?
-Sim.
-O nome de me?
-Sara Jamison. Olhe, eu...
-Espere um momento -interrompeu-o a enfermeira, olhando a tela do computador-. Oh, no. Equivoquei-me de tecla. Teremos que voltar do comeo.
Cal tirou um carto na carteira.
-A esto meu endereo e meu telefone. Comprove tudo o que necessitar, eu vou ver Sara. 
A jovem ficou olhando o carto. 
-Sara  a me e Jessie a menina, verdade? 
-Jessie Lee -respondeu ele antes de sair do escritrio.
Tinha que ver Sara e  menina para comprovar que as duas estavam bem. E ento suas obrigaes teriam terminado e poderia ir tomar uma cerveja com James.
Cal parou um momento diante da porta antes de chamar.
-Entre.
-Ol. Como ests?
Sara estava preciosa, pensou. Mais que preciosa, radiante.
-Bem. Viu Jessica? -perguntou ela, com um sorriso de felicidade que iluminava seu rosto sardento.
-Vi que a levavam pelo corredor.
-E quando vo trazer-la para mim.
-No sei. Quer que o pergunte?
Sara sorriu.
-Importaria-te?
-Claro que no -respondeu ele, tentando ignorar o calor que o sorriso de Sara o fazia sentir por dentro-. O que disse o mdico? Ests bem?
-Estou muito bem... graas a ti.
Cal tossiu para desfazer o n que tinha na garganta. Sara e ele tinham vivido uma experincia nica. Por isso estava to nervoso.
Mas tinha chegado o momento de partir. Iria ver Jessie e se despediria das duas.
Ento voltou a olhar Sara. Um homem poderia afogar-se naqueles olhos, pensou bobamente.
Nesse momento apareceu uma enfermeira empurrando o bero de Jessie. A menina chorava com tal fora que seus gritos ecoavam por todo o corredor.
Cal estendeu a mo e acariciou sua cabecinha. Ele era filho nico e sempre tinha pensado que teria muitos filhos. Mas seus filhos no seriam criados por um monto de babs, seus filhos teriam seu amor, seu carinho...
-Examinaram-na?
-Fizemos-lhe um exame de rotina, mas estamos esperando o pediatra -respondeu a enfermeira-. Depois a levaremos a uma unidade de isolamento.
-Por que? -perguntou Sara.
-Quando uma criana nasce fora do hospital se mantm-lo afastado do resto se por acaso pudesse estar contaminado com algo. So as normas -respondeu a mulher, apertando a mo de Sara para tranqiliz-la.
Cal olhou  menina, preocupado.
-Tem algo de mal?
-Ainda no sabemos. E no pode lhe dar o peito at que o pediatra a veja -respondeu a enfermeira-. Se necessitar de algo, aperte a campainha.
-Obrigado -murmurou Cal. Quando Sara tentou incorporar-se, ele a deteve-. Espera. Eu lhe darei ela.
Cal tomou  menina nos braos. Era to pequena que podia segurar-la com s uma mo, mas lhe caa a cabecinha. A pobre era to frgil como um passarinho.
Jessie comeou a chorar ento e quando Sara a tomou nos braos Cal sentiu que lhe encolhia o corao.
-Minha menina preciosa.
-Ser melhor que me v. A menos que queira que fique at que venha o pediatra...
-No  preciso. Podes ir se quiser.
A menina deixou de chorar e ficou olhando a sua me. O silncio encheu a habitao ento, quebrado s pelo murmrio de Sara dizendo palavras de amor a sua filha.
Cal seguia sentindo um peso no peito. Por que ver Sara com sua filha o emocionava tanto? Perguntava-se. Tinha visto centenas de potros recm-nascidos, mas Sara e Jessie o faziam sentir... algo que nunca antes havia sentido.
-Quer que chame a algum antes de que me parta?
Sara acariciou o cabelinho loiro da menina. 
-No, obrigado.
-A seu marido, sua famlia? 
-No.
-A seu noivo?
Sara o olhou diretamente aos olhos. 
-No.
-No vais chamar o pai de Jessie?
-O pai de minha filha perdeu todos seus direitos quando me disse que abortasse.
Cal apertou os punhos. Conhecia bem a dor de ser rechaado e no gostava da idia de que Jessie crescesse sabendo que seu pai no a tinha querido.
-Se conhecesse a menina, mudaria de opinio. 
Os olhos de Sara se obscureceram.
-Gary tomou sua deciso no dia que me deixou. No ter oportunidade de fazer mal a minha filha.
-Certo -murmurou Cal, olhando a aquela mulher que acabava de converter-se em me e que protegeria a seu filhote com unhas e dentes. Apesar de tudo, seguia acreditando que Sara deveria falar com o pai de Jessie. Se ele tivesse um filho, gostaria de sab-lo.
Mas nunca haveria dito a Sara que abortasse. E nunca a teria abandonado.
Cal se deu conta ento de que Sara no tinha a ningum.
-Eu gostaria no ter que faz-lo, mas devo te pedir um ltimo favor -disse ela ento.
-O que?
-Ponha as chaves de meu carro sob o assento e fecha as portas.
-Por que? -perguntou Cal, surpreso.
-Porque o banco me tinha dado at hoje para pagar os prazos que devo e como no pude trabalhar... Ligarei para lhes dizer onde est o carro.
Cal tirou a carteira do bolso.
-Quanto necessita? -Sara o olhou, furiosa. 
-No quero seu dinheiro.
- s  um emprstimo. Pagar quando puder.
-Voc me ajudou a trazer para o mundo a minha filha e sempre lhe agradecerei por isso. Mas no posso aceitar seu dinheiro.
Cal a olhou, frustrado. Como pensava cuidar de sua filha sem dinheiro, sem trabalho e sem carro? A idia de que Sara estivesse sozinha, sem famlia e sem ningum que a ajudasse o punha doente.
-Como vais levar Jessie a casa?
-No sei. Tomarei um txi ou o nibus.
Pela primeira vez em sua vida, Cal tivesse desejado ser to frio como seus pais. Se fosse assim, no teria escrpulos e daria as costas a Sara sem pensar duas vezes. Mas no podia faz-lo.
Embora no queria admiti-lo, aquela garota teimosa de olhos verdes tinha se convertido em algum importante para ele.
-Levarei o carro a caminho de casa. Que banco ?
-O banco da Amrica, na avenida Fulham -respondeu ela, acariciando as costas da menina. Tinha os olhos cheios de lgrimas, mas tentava dissimular-. Obrigado por tudo.
Cal no podia suportar v-la chorar. Tinha que partir dali ou a tomaria em seus braos para consol-la. E no podia fazer isso. Ele no era seu noivo, nem seu marido, nem sequer seu amigo.
-Levarei-te para casa quando lhe derem a alta -disse, saindo da habitao antes que Sara pudesse replicar. Olhou seu relgio. Iria trocar de roupa e se reuniria com James no bar. Depois de tudo o que lhe tinha acontecido naquele dia, necessitava de uma taa. E, alm disso, no havia ningum esperando-o em casa.


Ao redor da meia-noite, Cal aceitava uma cerveja da garonete para qual James sorria com olhos de cordeiro. Os dois ficaram olhando como hipnotizados a jovem de ajustados jeans enquanto se afastava com a bandeja, mas a viso de Cal se nublou e ante ele apareceram uns olhos verdes que no o deixavam em paz. Irritado consigo mesmo, murmurou uma grosseria.
-Ests bem? -perguntou James, lhe dando uma palmadinha nas costas.
-Sim -respondeu Cal, reconhecendo por fim que no descansaria at saber que Sara e Jessie estavam bem.
-Se for seguir de luto pela Tiffany...
-Tiffany? -interrompeu-o Cal, surpreso.
-Sim, Tiffany, a garota com a qual deveria ter te casado hoje. Por que no a chamas e esclarece as coisas?
-Chamei-a antes de vir. E me confessou que faz um ms conheceu um fotgrafo em Nova Iorque -respondeu Cal, passando a mo pelo cabelo-. Parece que tentou romper comigo antes do casamento, mas lhe faltou coragem. Nunca lhe agradou que eu fosse veterinrio e s pensou deixar sua carreira de modelo e casar-se comigo quando meu pai me ofereceu aquele posto em um de seus conselhos de administrao.
James deu uma piscada a uma ruiva.
-E o que vais fazer?
-Nada.
-O que disseram seus pais?
-No sei. Foram a Paris depois da cerimnia e suponho que j estaro l.
Cal sabia que culpariam a ele pelo desastre com Tiffany e tambm sabia que sua me seguiria procurando-lhe uma esposa adequada, quer dizer uma garota com sobrenome e dinheiro.
Mas podiam comer seu dinheiro, suas festas, suas regras e seus esforos para arruinar sua vida. Cal nunca deixaria a nica coisa que o fazia feliz. Ele era veterinrio e nunca mudaria de vida nem para contentar a seus pais nem para agradar a uma bela modelo cujo amor tinha um preo que ele no estava disposto a pagar.
-Vais deixar que se case com o fotgrafo?
-No posso fazer nada. Alm disso, Tiffany e eu no tnhamos nada em comum e estou farto de enganar a mim mesmo para agradar a meus pais.
James o olhou, surpreso. 
-Ests seguro?
-A partir de agora, penso fazer o que quiser, quando quiser e com quem quiser.
O telefone mvel de Cal comeou a soar nesse momento.
-Doutor Tucker?
-Sim, sou eu -respondeu ele.
-Chamo do hospital. O doutor Moore me pediu que o chame.
-O que ocorre?
-H um problema com a menina.
O corao de Cal foi parar na garganta 
-Me ligue com a Sara.
-Sinto doutor Tucker, mas tivemos que sed-la.
-Vou para l -disse Cal antes de desligar. 
-O que acontece? -perguntou James. 
-Tenho que ir.
-Quem  Sara?
-No lhe posso contar isso agora -disse Cal, colocando o casaco -. Vou tomar alguns dias livres. Pode cuidar da clnica sozinho?
-Claro -respondeu seu amigo.
Cal se despediu com a mo e saiu do bar a toda velocidade.
Sara o necessitava. Jessie o necessitava. E tinha que saber se ele era responsvel pelos problemas da menina.


Sara estava dormindo e Cal acariciou sua bochecha com delicadeza. Os cachos loiros caam sobre sua testa, lhe dando uma expresso de menina que o enternecia.
A voz de uma enfermeira pelo alto-falante o sobressaltou e Cal apartou a mo. O som do ar condicionado era o nico que quebrava o silncio da habitao.
Se tivesse notcias da menina, alguma esperana para dar a Sara quando despertasse...
Ela abriu os olhos nesse momento e Cal se deu conta de que seguia meio sedada.
-Estou aqui, Sara. Tudo vai bem -disse, sentando-se a seu lado.
-Cal... como soubeste?
-Chamaram-me pelo telefone.
Sara tomou sua mo como se tivesse medo de ficar sozinha.
-Disseram-lhe algo sobre Jessica?  a nica coisa que tenho. No posso perd-la.
Cal sabia que no devia abra-la, mas o fez. Tinha que fazer algo para aliviar sua dor.
-No irei at que fale com o mdico -murmurou, enterrando o rosto em seu cabelo.
Quando tentou apartar-se, ela enredou os braos ao redor de seu pescoo. Sua proximidade o queimava.
Sabia que devia apartar-se, mas no podia faz-lo.Sara o necessitava. O mnimo que podia fazer era consol-la.
Uns segundos depois, apartou-se. No podia entender sua reao ante aquela mulher. No gostava do que Sara o fazia sentir... no gostava daquele desejo de estar com ela, de proteg-la. Sara merecia mais do que ele podia oferecer.
Ela o atraa, mas no voltaria a cometer outro erro.



Captulo 3

Cal estava h trs horas passeando em frente  unidade de isolamento do hospital, esperando que algum lhe desse notcias de Jessie. Deveria ir comprovar se Sara seguia dormindo, mas no queria v-la at que tivesse notcias da menina. Alm disso, devia conter uns sentimentos que... no tinham nada a ver com proteger-la e proteger  menina.
-Necessitamos de sua assinatura, doutor Tucker -disse-lhe uma enfermeira com uns papis na mo.
-O que tenho que assinar?
-O compromisso de pagamento pelos servios do hospital.
-Quem tem que assinar isso  Sara.
A porta da unidade de isolamento se abriu ento e um mdico saiu da sala.
-Doutor Tucker? -perguntou, tirando a mscara.
-Sim.
-Sua assinatura, por favor -insistiu a enfermeira.
Cal assinou com toda pressa e a mulher desapareceu pelo corredor.
-Me disseram que atendeu o parto em um carro -disse o mdico, oferecendo sua mo.
-Assim . Como est Jessie?
-Bem. Voc trouxe ao mundo uma lutadora.
Um sentimento de orgulho encheu Cal ento.
-O que aconteceu?
-A menina aspirou lquido amnitico e tem certas dificuldades para respirar. Teremos que observ-la durante algumas horas, mas se tudo for bem podero ir para casa amanh pela tarde.
Cal se sentiu aliviado, mas as dvidas o estavam matando.
-Foi minha culpa?
-No -respondeu ele mdico, lhe dando uma palmadinha no ombro-. Tem-no feito muito bem. So coisas que acontecem.
-A menina ter algum problema posterior por causa disto?
- difcil de saber. Eu acredito que no  nada grave, mas tero que vigi-la.
-Obrigado.
Cal escutou vozes no corredor quando se dirigia  habitao de Sara. Ela se tinha levantado da cama e se dirigia  unidade de isolamento arrastando o soro enquanto a enfermeira tentava det-la.
-Tem que voltar para a habitao, senhora Jamison.
Quando Sara viu Cal, jogou-se em seus braos, com os olhos cheios de lgrimas.
-Te acalme, tudo est bem.
Cal teria desejado no sentir o frgil corpo daquela mulher apertado contra o seu, mas no podia apartar-se.
-Pode falar com ela? -perguntou a enfermeira-. Segue sedada e no pode andar pelos corredores. Sei que  duro esperar, mas assim que saibamos algo sobre a menina o diremos.
-Eu a levarei para a habitao -disse Cal.
-Me solte -disse Sara ento, apartando-se com uma energia que o surpreendeu-. No penso em voltar para a cama at que algum me diga o que acontece com minha filha.
Cal teve que segurar-la, tentando no olhar o que o roupo aberto nas costas deixava a descoberto.
-Sara, te acalme. Acabo de falar com o mdico. 
-Como est Jessica? -perguntou ela, angustiada.
-Est bem. Vamos  habitao e lhe contarei tudo.
Ela se deixou cair em seus braos e Cal lhe deu umas palmadinhas torpes nas costas, sem saber o que fazer.
Ver aquela mulher to forte desfeita em lgrimas, aquela mulher que acabava de ter a sua filha em um carro s com a ajuda de um veterinrio, fazia que o corao de Cal se encolhesse.
-Tenho que v-la, por favor. Por favor, Cal, tenho que saber que est bem.
Cal se esclareceu garganta.
-O mdico quer ter Jessie em observao durante umas horas. Quando estiverem seguros de que est bem, traro-a para a habitao, no se preocupe -disse, tomando-a pelos ombros. Ela rodeou sua cintura com os braos, como se no tivesse foras para seguir.
Cal no queria envolver-se em sua vida, mas Sara precisava apoiar-se em algum durante um tempo. E esse algum era ele. No podia abandon-la.
Aquele deveria ter sido o dia mais feliz de sua vida. Sara deveria estar rodeada de sua famlia e seus entes queridos e, entretanto, sua filha estava na unidade de isolamento e ela estava sozinha com um homem incapaz de amar a algum. Tudo por causa de um canalha que a tinha abandonado, deixando-a grvida.
Cal sabia muito sobre sonhos destrudos e lhe doa que ela tivesse que passar por isso. Sara merecia um homem o qual pudesse cuidar dela e da menina, um homem que a amasse. E, por um momento, desejou ser esse homem.
Mas sabia que no o era e nunca o seria.


Na manh seguinte, Sara apartou a bandeja do caf da manh, com o corao quebrado.
- minha culpa. Deveria ter sado antes de casa -murmurou, angustiada-. Esperei muito antes de vir ao hospital.
-Fez o que acreditava melhor -disse Cal.
Ela se sentia derrotada. Cada dia tinha sido mais difcil sobreviver. Ao princpio, quando Gary a abandonou, era como se ele tivesse levado tudo de bom de sua vida. Mas no era assim. Gary, com seu bonito sorriso e suas palavras ternas, tinha-lhe feito acreditar que as coisas iam bem entre eles, mas ao final Sara se deu conta de que tudo era uma mentira.
E naquele momento tinha algo pelo que lutar, tinha Jessica, a nica coisa decente e formosa que restava a sua vida. As lgrimas rodaram por seu rosto, mas no tinha energia suficiente para secar-las. 
A adrenalina que a tinha mantido com foras depois do nascimento de sua filha tinha desaparecido e s queria meter-se na cama e chorar.
-Me escute, Sara -comeou a dizer Cal-. O doutor Moore me disse que estas coisas acontecem. No  tua culpa.
-Eu no queria fazer mal a minha filha.
-Claro que no.
Sara escondeu o rosto entre as mos. Sua me tinha morrido quando ela nasceu e ningum lhe tinha ensinado nada sobre o carinho maternal at que seu pai a enviou para viver com sua av.
-Possivelmente no sirvo para ser me.
Cal se aproximou e se sentou a seu lado.
-No sabia que eras das que se rendem.
Sara levantou os olhos, cheios de lgrimas.
-No o sou.
-Pois poderia enganar a qualquer um -sorriu ele, lhe secando uma lgrima.
-No estou chorando. ... a depresso pos-parto. Suponho que saber o que .
Cal sorriu e Sara se deu conta pela primeira vez de que ao sorrir lhe formavam dois furinhos nas bochechas.
-A verdade  que nunca vi uma gua deprimida depois de ter um potro.
Sara teve que sorrir. Aquele homem a fazia se sentir segura. Era diferente do resto dos homens que tinha conhecido.
A porta se abriu nesse momento e uma enfermeira entrou na habitao empurrando o bero de Jessica, que no deixava de chorar. Sara ia levantar-se da cama, mas Cal a deteve.
-Me deixe. Estou bem.
-Por que no se senta nessa poltrona? -sugeriu a enfermeira-. Eu lhe darei  menina. E se necessitar de algo, toque a campainha.
Sara colocou Jessica sobre o seio e lhe encheu a cabecinha de beijos. Todas suas preocupaes pareceram esfumar-se ento.
-Vais chorar outra vez? -perguntou Cal, sentando-se na cama.
-No. Agora minha filha est comigo e isso  tudo o que necessito -respondeu ela, deixando escorregar o roupo por seu ombro-. Olhe, Cal, j sei que... as mes so todas iguais, mas eu no estou acostumada... -comeou a dizer, nervosa. Ele no se moveu-. No posso fazer isto se segue olhando.
Cal se levantou sem deixar de sorrir.
-Sara, j vi tudo o que tinha que ver. Mas no se preocupe, tenho que ir. S vim para ver como  Jessie estava.
-Agradeo-te muito tudo o que tens feito...
-No tem que me agradecer por isso -ele a interrompeu, despedindo-se com a mo.
Quando esteve sozinha, Sara colocou  menina sobre seu seio e Jessica procurou o mamilo instintivamente. Nesse momento, algum deu um golpe na porta e entrou sem esperar resposta.
-Cal! -exclamou Sara, cobrindo o seio com uma toalha.
Ele tirou o chapu e comeou a lhe dar voltas na mo.
-Eu... voltarei a passar por aqui mais tarde para ver se necessitam de algo.
-No tem que faz-lo. Agradeo-te tudo o que tem feito pela Jessica e por mim, mas sei que tem coisas que fazer.
Cal voltou a colocar o chapu e Sara tentou ignorar o calor de seu olhar, mas no lhe resultava fcil.
-A verdade  que tomei uns dias livres. Meu scio se encarregar da clnica.
-No quero parecer ingrata, mas no tem que voltar. Estou bem, de verdade.
Embora parecia diferente de Gary, Cal era um homem e quo ltimo Sara precisava era acostumar-se a ter-lo porperto. Os homens s lhe tinham dado problemas e estava mais que farta.
-Olhe, eu... sinto-me responsvel -disse Cal, sem olh-la.
-No tem por que.
-O mdico disse que os problemas respiratrios de Jessie poderiam durar um tempo, assim se no te importa...
Sara o olhou, assustada. A habitao parecia ter comeado a dar voltas.
-Por que no havia me dito isso?
-No queria preocupar-te...
-Sou sua me. Devo me preocupar -interrompeu-o ela, olhando  menina, que seguia mamando tranqilamente-. Disse que  grave?
Ele a olhou com expresso sria.
-Disse que ter que esperar -respondeu Cal-. No posso ir. Necessita-me.
-Olhe, pode ser que eu necessite de muitas coisas, mas no necessito de um homem.
-No  o que pensa, Sara. Quero que sejamos amigos.
Ela o olhou sem dizer nada durante uns segundos.
-No ias casar-te?
-J no mais -respondeu ele.
-Sinto muito.
-No o sinta -disse Cal, tocando o chapu-. Veremo-nos mais tarde.
Sara se sentia incmoda com os pensamentos que aquele homem provocava nela. Uma mulher que acabava de ter um filho no devia pensar... certas coisas.
Cal tinha estado a seu lado durante o nascimento de sua filha e se comportou em todo momento como um amigo, algum em quem podia apoiar-se.
Mas era muito atraente. Embora sua reao devia estar provocada por um excesso de hormnios, Sara devia admitir que se sentia atrada por ele.
Cal era um homem de um metro noventa, bonito, forte e com o bronzeado de algum acostumado ao ar livre. Com jeans estava inclusive mais bonito que com smoking e cada vez que a olhava com aqueles olhos cinzas, Sara sentia um calafrio.
Mas devia recordar Gary. A Gary, a seu pai, a todos os homens que a tinham feito sofrer. Sara no queria saber nada de outro homem.
Nem sequer de um que insistia em ser seu amigo.


Naquela mesma tarde, Cal entrou na habitao e encontrou Sara pondo uma camisetinha branca  menina.
-Que tal est?
Sara dissimulou um bocejo. 
-Dormiu um pouco.
-E voc? Pde descansar? 
-No muito.
Cal deixou uma bolsa sobre a cama. 
-Posso devolv-lo se no lhe servir. 
-Compraste algo para Jessica?
-Pensei que necessitaria de um pouco de roupa. 
Sara abriu a bolsa e tirou vrios pijaminhas de cor rosa.
-No sei o que dizer.
-No tem que dizer nada. Suponho que estar desejando sair daqui. E eu tambm -disse ele, assinalando a bolsa.
Sara tirou um vestido de flores e o olhou com os olhos como pratos. 
-Para mim? Cal sorriu.
-A verdade  que eu gosto do roupo, mas pensei que necessitavas de um vestido mais decente para sair do hospital.
-Obrigado, s muito amvel -disse Sara, com os olhos cheios de lgrimas.
Cal pensou que se ficava assim por um simples vestido, comearia a gritar quando visse a cadeirinha de carro que tinha comprado para Jessie.
-No seja tola. Segue com a depresso? -perguntou Cal. Sara assentiu-. O mdico viu  menina?
-Sim, acaba de partir. 
-E o que disse?
-Que est bem. Se no voltar a ter problemas respiratrios, tenho que traz-la para reviso dentro de duas semanas -respondeu ela, lhe devolvendo o vestido-. Obrigado, mas no posso aceit-lo.
-Por que no?
-Porque no tenho dinheiro para pag-lo.
-Olhe,  somente um presente. Alm disso, tem que aceit-lo.
-No pode devolv-lo?
-No. Comprei-o... nas ofertas -mentiu Cal. 
-Ah -murmurou ela.
-Se no o quiser, terei que atir-lo fora. 
Sara acariciou o tecido com a mo. 
-Nesse caso, aceito-o. Obrigado.
Cal se sentou em uma cadeira enquanto Sara trocava  menina. Nunca tinha conhecido uma mulher como ela. Uma mulher to diferente de Tiffany, sempre to perfeita, sempre to elegante. Sara no parecia she importar seu traje, nem seus desordenados cachos loiros. Mas Cal devia recordar que as aparncias eram enganosas.
Apesar de tudo, seu corpo respondia de forma imediata cada vez que estava a seu lado e vendo-a sorrir com aquela ternura...
Mas, no que estava pensando? Desejar a uma mulher que acabava de ter um filho... Uma mulher que necessitava seu amparo.
Uma mulher que o fazia perguntar-se como seriam seus lbios.


Quando chegaram ao desolado camping, Cal teve que suspirar. Como desvencilhadas cascas de escaravelhos mortos, os trailers estavam grudados uns nos outros quase sem nenhum espao entre eles. Os vidros quebrados estavam cobertos por papelo e as portas presas com cordas. Era um lugar espantoso.
Sara sentia o olhar de Cal cravado nela, mas no queria olh-lo para no ver a compaixo em seus olhos.
Um homem sentado nos degraus de um trailer fez um gesto com a mo ao ver Sara.
-Quem ? -perguntou Cal.
-O dono do camping -respondeu ela. O vento gelado ameaava neve e Sara se dirigiu, tremendo, para o trailer onde a esperava aquele tipo com cara de poucos amigos-. Ol, senhor Davis.
-Deve-me o aluguel de trs meses -foi a saudao do homem.
-J sabe que no pude trabalhar durante os ltimos meses da gravidez porque o mdico me proibiu isso, mas lhe prometo...
O homem cuspiu o tabaco que estava mascando.
-Disse-me que necessitava do dinheiro do aluguel para pagar a luz e a gua, mas lhe cortaram as duas coisas. O aviso de corte de servio est em cima de sua mesa.
-Entrou em meu trailer? -perguntou Sara, surpreendida.
-Acreditei que tinhas ido embora e vendi suas coisas para cobrir o que me deve.
-Vendeu minhas coisas? -repetiu ela, atnita.
-No havia muito que vender -respondeu o homem, frio como o gelo.
-Tem que recuperar-las.  tudo o que tenho...
-Oua, voc tinha desaparecido e eu tenho que recuperar o que  meu.
- voc um...! -comeou a dizer Sara, dando um passo para ele. Cal a segurou pela mo-. Me solte!
-O que vais fazer?
-Vendeu minhas coisas...
-Te acalme. No passa nada.
-Voc j no vive aqui, assim v com seu amante a outro lugar -disse o senhor Davis ento.
Sem pensar, Cal se voltou e lanou seu punho contra o rosto do homem, enviando-o ao cho.
-Vou chamar  polcia! -gritou o senhor Davis.
Sara segurou Cal, que estava furioso.
-Por favor, deixa-o. No quero que acabe no crcere por minha culpa.
-No se preocupe -murmurou Cal, tocando-os ndulos-. Tudo vai sair bem.
Quantas vezes Sara havia se dito isso a si mesma? Mas ento era uma menina. Uma menina que acreditava em sonhos e em promessas. Embora o nico que desejava no mundo era dar Jessica um lar cheio de amor e segurana, sabia que nada ia sair bem.
Nesse momento comeou a nevar, dissolvendo as poucas esperanas que restavam e no pde seguir dissimulando.
-Nesse trailer estava o broche de minha av com a nica foto de minha me -soluou, com o rosto entre as mos.
Cal a abraou, sem saber o que fazer.
Por um momento Sara se perguntou se devia dar Jessica em adoo, mas desprezou a idia imediatamente. Tinha que lutar. O devia a sua filha. Seu pai se havia despreocupado dela quando era menina, enviando um envelope com dinheiro cada ms a casa de sua av, mas Sara teria dado qualquer coisa para que tivesse ido ver-la.
Ela no seria assim. Ela lutaria por sua filha. Embora tivesse que cavar sarjetas com Jessica atada  costas, encontraria uma forma de mant-la. Sua filha era tudo o que tinha.
-Ests melhor? -perguntou Cal.
Ela assentiu e Cal a levou at a caminhonete. Quando abriu a porta, Sara observou seus ndulos.
-Te machucaste?
-No -respondeu ele-. Entra. Vou levar-te para casa. 
-Mas Cal, esta era minha casa. 
Ele a olhou um momento, em silncio. 
-No, quero dizer para casa... comigo.



Captulo 4

Cal estacionou em frente a sua casa e se chamou cem vezes idiota enquanto ia abrir a porta para ajudar Sara. No devia t-la levado a sua casa, mas que outra coisa podia fazer?
Incomodava-lhe querer cuidar dela, proteg-la. E lhe incomodava ainda mais que ela dissesse no necessitar a ningum.
-No sei se esta  boa idia. Na realidade, no nos conhecemos...
-Vamos, Sara. J falamos disso -interrompeu-a ele-.  o nico que podemos fazer.
-Sei. Mas  que...
-Se prefere ir a outro lugar, posso te levar.
Ela ficou pensando um momento e depois negou com a cabea.
-S estou aqui um ano e no conheo muita gente. Tem a Karen, uma amiga do Gary, mas no recordo seu sobrenome e tampouco sei seu nmero de seu telefone.
-Ento, ter que ficar aqui at que encontre algo melhor -disse Cal, ajudando-a a descer da caminhonete e tirando a cadeirinha de Jessie. Seu cachorro, Sheep, saiu ladrando do celeiro para saud-lo e comeou a dar voltas a seu redor, cheirando a mozinha de Jessie.
Sobressaltada, a menina comeou a chorar e seus gritos excitaram mais ainda a Sheep, que comeou a ladrar como um louco.
-Quieto, Sheep -ordenou Cal.
A porta se abriu nesse momento e sua inquisitiva governanta saiu ao alpendre. Cal entrou com Sara e deu a cadeirinha a Hattie.
-A menina se chama Jessie e ela  Sara -disse-lhe, a modo de saudao.
-Tem trs dias -disse Sara, acariciando a cabea de sua filha-. Cal me ajudou a traz-la ao mundo.
Hattie se levou a mo ao corao.
-Por Deus, Cal, por que no me havia dito isso?
-No era para tanto -respondeu ele, tirando o chapu.
Hattie se voltou para Sara, sacudindo a cabea.
-Este menino sempre est ajudando a algum. Na semana passada...
-Importa-te fazer a cama no quarto de hspedes? -interrompeu-a Cal, tentado evitar que Hattie, que era quase uma me para ele, comeasse a enumerar suas supostas virtudes.
-Sente-se, Sara -disse a mulher, deixando a cadeirinha de Jessie sobre a mesa-. Estou desejando contar a minhas amigas. Sobre tudo a Mary, com quem jogo bingo. Quando lhe disser que Cal ajudou a trazer ao mundo esta menina lhe vo sair os olhos das rbitas -acrescentou, sorrindo. Cal lanou sobre ela um olhar de reprovao e a mulher se dirigiu  porta -. Bom, j vou. Arrumarei a habitao em um minuto.
-Parece que Hattie tem muito boa opinio sobre ti.
Ele sacudiu a cabea.
-Sim, nunca v meus defeitos.
-A verdade  que te ests portando muito bem comigo. Deixar que fique em sua casa, sem me conhecer...
Cal se aproximou da pia para lavar as mos, perguntando-se por que tinha levado Sara a sua casa... e temendo conhecer a resposta.
-Necessitava de uma habitao.
-Agradeo-lhe muito por isso. S ficarei at que encontre algo.
No era uma situao ideal. Quo ltimo Cal queria era ter uma mulher em sua casa, e menos uma mulher to s e necessitada como ela, mas no tinha tido outra opo.
-No passa nada porque fiques aqui durante um tempo -insistiu Cal, incmodo. A menina seguia chorando e seus gritos comeavam a desesper-lo-. O que passa com ela?
Sara tentou desabotoar o cinto da cadeirinha enquanto a menina berrava, com a carinha vermelha. Desesperado pelos gritos de Jessie, Cal se aproximou para ajud-la e a menina se agarrou a seu dedo. E a Cal o corao lhe deu um tombo. Hattie entrava nesse momento na cozinha.
-Sua me ligou da Frana esta manh. Diz que estiveram esperando na porta da igreja para falar contigo, mas tiveram que partir para o aeroporto.
Cal se apoiou na estante, com os braos cruzados.
-Suponho que quereria me dar uma bronca -murmurou. Hattie olhou a Sara e depois para Cal. Ele se deu conta de que se estava guardando algo-. O que?
A governanta hesitou um momento, como se no queria falar diante de Sara.
-Sua me acredita que Tiffany no apareceu na igreja por sua culpa. Eu lhe disse que no era assim, mas j conhece sua me. Est pensando em arrumar a coisa.
O que podia esperar de sua me? Ela sempre havia tentando dirigir sua vida, sempre o tinha tratado como um menino. E quanto a seu pai, estava decidido a que ele herdasse o negcio familiar, algo do que Cal no queria saber nada.
-Quando voltam para casa?
-Ela disse que ainda no estava certo. Algumas semanas ou um ms.
Nesse tempo poderia procurar um lugar para Sara e voltar para sua vida normal. Assim que sua me voltasse para Dallas, comearia o desfile de jovenzinhas de boa famlia.
Mas naquele momento, no que tinha que pensar era em como ia viver na mesma casa com Sara quando cada vez que a olhava, recordava o atraente que estava com o roupo do hospital... aberta pela parte de trs.


De noite, Sara estava banhando Jessie na pia da cozinha.
Adorava aquela habitao, o domnio de Hattie, decorada em tons azuis e com cortinas de flores na janela. E gostava muito de banhar a sua filha. Sua me no tinha podido faz-lo e muitas noites, quando era criana, Sara tinha chorado at ficar adormecida. Sua av lhe recordava quase constantemente que ela tinha sido a causa da morte de sua me.
Sara sempre tinha culpado a seu pai por abandon-la, mas naquele momento, sem lar e sem trabalho, entendia melhor sua deciso.
- to preciosa. Quero-te mais do que tudo no mundo -murmurou, lavando a carinha da menina. Jessica abriu seus inocentes olhinhos azuis e os de Sara se encheram de lgrimas-. No se preocupe, querida. Eu nunca te abandonarei.
Cal entrou na cozinha nesse momento.
-O que se passa?
Sara se secou as lgrimas com a manga do vestido e tirou Jessica da gua.
-No se passa nada -respondeu, envolvendo  menina em uma toalha.
-Ento por que ests chorando?
-No estou chorando. Bom, sim -respondeu ela, observando a Cal, to bonito com os jeans e o chapu texano-. Me deixas louca -disse, sem pensar-. Quero dizer que tudo me faz chorar e no sei por que -corrigiu-se a si mesma, vermelha como um tomate.
-Ests cansada?
-Um pouco. A menina desperta a cada trs horas e no deixo de pensar no que vou fazer.
Cal tirou seu chapu e o deixou sobre a mesa. 
-Por que?
-Preciso encontrar uma casa e um trabalho. 
-Que experincia profissional tens?
-Trabalhei como garonete e fazendo a contabilidade de um pequeno restaurante. Depois, quando vim viver aqui, trabalhei em um supermercado at que o mdico me disse que devia ficar de cama.
-No tenha pressa -disse Cal-. No me incomoda absolutamente. J pensaremos em algo quando chegar o momento.
-Agradeo-lhe isso, mas no posso aceitar tua...-Sara ia dizer caridade, mas no o disse-. Tenho que encontrar um trabalho.
Tenho que me afastar de ti, era o que estava pensando.


Sara entrou na sala e ficou olhando o sof de flores rosas, as paredes pintadas de rosa, o macio tapete rosa e os vasos cheios de flores... rosas.
Sua me dizia que era uma decorao chique. A Cal parecia horrorosa.
Na realidade, odiava aquela decorao. Gostava da cozinha, mais austera e sbria, mas na sala sentia que entrava nos domnios de sua me. O mnimo parecido a um lar. Nem sequer se atrevia a mover algo por medo de que ela o notasse e pusesse o grito no cu.
-Minha me contratou um decorador como presente de casamento. Depois de ver esta habitao, despedi-o.
Sara sorriu.
- uma habitao muito agradvel... se voc gostar muito da cor rosa -disse, enquanto se sentava na cadeira de balano com Jessie em seus braos. A Cal se fazia um n no estmago cada vez que a via acariciando a sua filha, mas no podia deixar de olh-la, como hipnotizado-. Obrigado por deixar que fiquemos em sua casa.
-Eu... queria te falar de algo.
-Me diga.
Acabava de lhe ocorrer uma idia. Era uma loucura, mas poderia ser a soluo.
-Voc gostaria de trabalhar em minha clnica?
-Fazendo o que?
-Respondendo ao telefone, fazendo a contabilidade e essas coisas.
-Quem fazia isso antes?
-Kelly. Partiu faz um ano e meu scio no quis contratar a ningum porque est convencido de que vai voltar.
-Mas se foi h um ano...
-Temo que houve algo entre eles, mas James no quis me contar nada.
-E quem tem feito o trabalho durante este ano? -perguntou Sara.
-Tentei faz-lo eu, mas no tenho muito tempo. Alm disso, o que me agrada so os animais, no a contabilidade e os computadores.
Sara o olhou, pensativa.
-Seria maravilhoso, mas necessitaria de uma bab para Jessica.
Hattie entrou na sala nesse momento. 
-Algum quer caf? 
-Eu, muito obrigado -respondeu Sara.
-Hattie, conhece algum que possa cuidar de Jessie enquanto Sara me ajuda na clnica? 
-Eu poderia cuidar da menina -disse a governanta.
-Ter algum to perto seria maravilhoso. Assim poderia lhe dar o peito sem nenhum problema -sorriu Sara, esperanada-. Mas no quero ser uma carga. 
Hattie fez um gesto com a mo.
-Esta menina to preciosa no pode ser uma carga para ningum. Alm disso, eu estou aborrecida.
Cal se levantou, encantado consigo mesmo. 
-Ento, est decidido. Pode comear quando quiser.
Quando tivesse economizado um pouco de dinheiro, poderia alugar uma habitao em alguma parte, pensou Sara. Isso era o que queria... ou no?


O aroma de ovos com presunto recebeu a Cal pela manh quando se dirigia  cozinha. E a risada alegre de Sara. Estava vivendo a uma semana em sua casa e tinha comeado a acostumar-se a aquele som.
Mas quando entrou e a viu falando com James, o dom Juan de Willow Grove, seu corao deu um tombo.
-Dormiste bem? -perguntou, lhe pondo uma mo sobre o ombro, em um gesto possessivo.
-A verdade  que no -respondeu Sara.
-A pequena? -perguntou Cal, assinalando a uma cesta de vime onde dormia a pequena.
-Esteve acordada quase toda a noite.
Cal se aproximou de Jessie e acariciou seu cabecinha. 
-Ol. Por que no deixas que mame durma um momento, bichinho?
Jessie bocejou, movendo os punhos.
-Despertou s trs da manh e voltou a dormir s cinco -sorriu Sara, dissimulando um bocejo.
-Possivelmente deveramos lev-la ao mdico -disse Cal ento, preocupado.
-No lhe acontece nada, Cal -interveio Hattie-. As crianas so assim.
-J vejo que voc se apresentou sozinho -disse Cal, sentando-se ao lado de James.
Seu scio estava tomando caf, muito sorridente. 
-Sim. Ia a casa dos Johnson, mas por sorte decidi passar antes por aqui.
-Estava dizendo a James que espero comear a trabalhar hoje mesmo -disse Sara.
-Eu acredito que  muito cedo -objetou Cal. 
-Mas se estou perfeitamente bem. No me importa se estou aqui ou atendendo o telefone na clnica. 
-Isso  verdade -disse James, levantando-se. 
-E quem perguntou a ti?
-Oua, se Sara  empregada da clnica, eu tambm posso opinar -protestou seu amigo, colocando o chapu-. Prazer em conhec-la, Sara.
-O prazer  meu -sorriu ela.
-No vais trabalhar hoje -disse Cal. Sabia que ela estava desejando ganhar a habitao que ocupava e no pensava deixar que trabalhasse antes de que estivesse recuperada de tudo-. Comear na semana que vem.
Hattie colocou os pratos do caf da manh frente a eles e levantou Jessie de seu bero.
-Vou trocar a fralda da menina.
-Obrigado, Hattie -disse Sara-. Cal, por favor, trabalhar em um escritrio no vai matar-me.
-Muito bem. Pode comear se quiser, com uma condio.
-Qual?
-Que descanse cada vez que venha a dar o peito a Jessie.
Os olhos de Sara se encheram de lgrimas. 
-Perdoa, so os hormnios -murmurou, envergonhada-. Muito obrigado. No o lamentar. 
-Certo.
Mas Cal estava lamentando-o. Lamentava haver-se cruzado com ela, lamentava t-la levado a sua casa e lamentava no poder convencer-se a si mesmo de que aquela mulher no lhe importava. Permanecer indiferente era mais difcil a cada dia. Quando os olhos de Sara se enchiam de lgrimas, tinha que fazer um esforo para no estreit-la entre seus braos.
No fundo era uma menina. Quando se fosse de sua casa, teria que cuidar sozinha de sua filha e ele no estaria ali para proteg-la. Nem a ela nem a Jessie. Cal afogou uma maldio quando a viu secar as lgrimas com a manga do vestido. No deveria desejar abra-la. No tinha o direito.
Mas, sem pensar, tomou-a pela cintura e a envolveu em seus braos.
-Desculpe, no sei o que acontece comigo -sussurrou ela, sem deixar de chorar.
- a mudana hormonal, no se preocupe -disse Cal, respirando o aroma de seu prprio xampu, que nela cheirava diferente-. J passar.
Cal tentava convencer a si mesmo de que tudo o que fazia, fazia por ela. Necessitava de amparo, carinho, o que ele mesmo no tinha tido nunca.
Sara se secou as lgrimas e sorriu, um sorriso que quase lhe fez perder o equilbrio. Apesar dos inconvenientes, t-la perto no ia ser to mau. Enquanto Sara no interferisse em sua vida.
E James no se aproximasse dela.



Captulo 5

Se no ficasse louco, seria um milagre. Cal lhe tinha explicado detalhadamente o que devia fazer, Sara tinha escutado atentamente suas explicaes... e depois tinha feito o que lhe dava vontade. E para piorar as coisas, James no se separava dela.
Cal estava procurando umas ataduras, mas no estavam na gaveta onde estava acostumado a guardar-las e pensando que James possivelmente as tinha mudadp de lugar, entrou no escritrio.
-James, viu...? -comeou a dizer, mas lhe engasgaram as palavras. James estava colado a Sara, os dois olhando a parede-. O que esto fazendo?
-Est reta?
-O que?
-Segure-a -suspirou Sara, voltando-se para trs para olhar a fotografia de um cavalo que Cal tinha tratado no ano anterior e que pouco depois tinha ganho uma das corridas mais importantes do estado-. Um pouco  esquerda, James. No, nem tanto. Assim, isso -indicou-lhe. Sara se voltou ento para Cal com um sorriso-. O que te parece?
No lhe parecia nada. No podia pensar com aqueles olhos verdes olhando-o diretamente.
-Supe-se que devia estar descansando. 
-Estou pendurando umas fotografias. Voc gosta? 
-Por que no ests fazendo a sesta?
-No te zangar porque estou colocando alguns pregos, verdade?
-No quero que te canses -insistiu Cal, observando suas olheiras-. Dormiste bem?
Sara tentou dissimular um bocejo. 
-Regular. Jessica estava inquieta. 
-E por que no me despertou?
-S queria estar no colo. No ia despertar-te para isso.
James deixou a fotografia sobre a mesa.
-Eu me dou muito bem com as crianas. 
Cal olhou a seu scio com olhos assassinos.
-No vai chamar a ti quando eu estou no outro lado do corredor -disse-lhe, irritado-. E voc, v  dormir -acrescentou, quando Sara no pde dissimular um segundo bocejo. Ela tomou um caderno e comeou a anotar algo-. O que ests fazendo?
-Aponto as horas que trabalho. 
-Por que?
-Para saber o que trabalhei e quanto te devo. Cal quase se engasgou.
-O que?
-No posso aceitar caridade...
-Caridade? Estou tentando te ajudar. Isso no  caridade.
-No posso deixar que me pague quando estou dormindo em sua casa e comendo sua comida. Pensei te pagar cem dlares  semana e como no tenho dinheiro, pago-te com meu trabalho.
-Nada disso.
Sara suspirou.
-Sabia que no o entenderias.
- que no te d conta de que s estou tentando te ajudar?
-Sei e lhe agradeo muito, mas deixar que fique em sua casa no te d direito de controlar minha vida.
-No estou controlando sua vida.
-Certo.
Sara deu a volta deixando um Cal hipnotizado pelo movimento de seus quadris.
-No penso deixar que anote as horas que trabalhas -insistiu. Ela nem sequer se incomodou em olhar por cima do ombro-. Digo-o a srio, Sara.
-J veremos..
Cal percebeu ento que James tambm a estava olhando. James e ele tinham sido amigos desde a universidade e Cal adoraria que ele encontrasse uma mulher e sentasse a cabea. Sempre que essa mulher no fosse Sara.
-Por certo, onde esto as ataduras?
-Estive arrumando um pouco a habitao do material. Como so as ataduras?
-Brancas e largas, como as dos hospitais -sorriu Cal.
-Ah, ento as pus na gaveta das gazes.
-Por que?
-Organizao -respondeu Sara-. Pus todo o material de primeiros socorros no mesmo lugar.
Cal se mordeu os lbios. Seria melhor no discutir.
-Obrigado.
-Espero que no te incomodes. J ver como assim  mais fcil encontrar tudo -disse Sara, antes de sair do escritrio.
Cal atirou o chapu sobre a mesa. Nunca tinha conhecido a uma mulher que no queria por tudo de pernas para o ar, mas esperava que Sara fosse diferente. James lhe deu uma cotovelada. 
-Como  bonita?
-Sim. Por certo, dei-me conta de que ests todo o dia olhando-a.
-E o que?
-Acaba de ter uma filha.
-Ningum o diria. Tem uma figura maravilhosa. 
-Supe-se que no deve olhar-la dessa forma. 
-Voc tambm a olha.
-Eu no a olho... dessa forma -protestou Cal, rezando para que no lhe casse um raio sobre a cabea. Tinha tentado no olhar para Sara, mas era impossvel.
-por que te zangas tanto? -perguntou James-. Ah, j sei o que acontece. Voc gosta de Sara.
-Que tolice. Sinto-me responsvel por ela, isso  tudo. Alm disso, ela no  seu tipo.
-Meu tipo?  uma mulher, Cal.
-Passou-o muito mal, James. Seu noivo a deixou quando se inteirou de que iam ter um filho.
-Pois ento est melhor sem ele.
Cal se passou a mo pelo cabelo.
-Estou de acordo, mas no quero que ningum lhe faa mal.
-E voc acha que eu o faria?
-Quer que te recorde os nomes das mulheres com as quais saste durante os ltimos seis meses?
-Ora, homem.
-Olhe, James, voc no  o que Sara necessita. No  feito para o casamento.
-E voc sim? -perguntou seu amigo.
-No -respondeu Cal, incmodo.
-Ento, s est preocupado porque no quer que lhe faa mal?
-Sara merece algum melhor que voc e eu, algum que cuide dela, que a trate bem. Vi-te sair com muitas mulheres para confiar em ti.
-Pois eu estava pensando que possivelmente  o momento de sentar a cabea, olhe para voc -replicou James-. Tinha pensado em pedir a Sara que sasse comigo, mas se voc est interessado...
-Sair contigo?
-Sim, mas se voc...
-No -interrompeu-o Cal-. J te disse que no estou interessado.
-Ah, maravilha. Porque gosto muito dessa garota.
A Cal aquilo sentou como um tiro. Deveria contar a verdade a seu amigo, mas depois do que tinha passado com Tiffany no se atrevia a confiar em seus sentimentos. Tudo era muito confuso.
-Diz o mesmo de todas as garotas com as quais sai. Lembro-me de Kristi, Terri, Vicky, Janet, Alisa. Quem era a que estava entre a Janet e Alisa? Bom, no importa, rompeu-lhe o corao.
James se encolheu de ombros.
-J vejo que lhe deste uma olhada, assim terei que me esquecer.
-Eu no lhe joguei o olho a ningum.
-Pois eu diria que sim -sorriu James, saindo do escritrio.
Cal amaldioou em voz baixa a seu scio, depois a Sara e depois a si mesmo. Nada daquilo estaria acontecendo se tivesse tomado outro caminho ao sair da igreja.
Tudo estava de pernas para o ar desde que Sara tinha entrado em sua vida. Se pudesse agentar at que ela se recuperasse e procurasse sua prpria casa, o caos desapareceria e voltaria para sua vida normal.
Possivelmente deveria animar Sara para que sasse com James. Mas imaginar Sara nos braos de outro homem o punha doente. Desde que Jessie e ela viviam em sua casa se sentia como se fosse um homem novo.
Cal sorriu ao pensar na menina. Seus sentimentos por Jessie o assombravam e o assustavam ao mesmo tempo. Quase podia acreditar que a queria, embora sabia que isso era impossvel. O que passava era que no estava acostumado a ter algum por perto, exceto James e Hattie.
Cal comprovou sua agenda. Jessie tinha uma consulta com o mdico no dia seguinte e ele pensava estar l para comprovar que a menina estava perfeitamente bem.
Parecia-lhe impossvel que Sara e ela estivessem em sua casa h duas semanas. O tempo tinha passado muito rpido e cada dia se aproximava mais o momento no qual teriam que partir. Mas isso era algo no que Cal no queria pensar seriamente.


Sara olhou Jessica, colocada na cadeirinha do carro.
-J te disse que engordou quase um quilo?
-Sim -respondeu Cal-. Trs vezes. E isso que eu estava ali enquanto a pesavam.
Sara sorriu, cobrindo  menina com uma manta.
-Agradeo-te muito que me levaste ao hospital, mas no deveria me ter comprado roupa.
Cal se encolheu de ombros.
-No  nada.
O aroma de sua colnia flutuava no interior do carro e Sara observou os dedos do homem sustentando a mudana de marchas. Gostava de observ-lo examinando aos animais, ouvir como lhes falava em voz baixa para tranqiliz-los. Cal fazia tudo com uma ternura da que ele mesmo no parecia dar-se conta.
Hattie lhe havia dito que os pais de Cal tinham muito dinheiro, mas ele no se comportava como um menino rico. Conduzia uma caminhonete velha e no usava trajes Armani, a no ser jeans e botas.
Embora no princpio ficava nervoso quando tomava Jessica nos braos, tinha ganho confiana e passava horas sustentando-a sobre os joelhos. E cada dia, Sara encontrava a si mesma desejando que a acariciasse como acariciava  menina.
-Quando tem que ir para reviso?
-Dentro de duas semanas -respondeu Sara, saindo de seu sonho vergonhoso.
-Encontra-te bem? 
-Sim. Maravilhosamente.
-Sara, James me disse ontem que ia pedir-te que sasse com ele.
Ela soltou uma gargalhada, mas quando viu a expresso sria de Cal o olhou, surpreendida. 
-No o dir a srio? 
-Sim.
-E por que vai fazer isso? No foi voc que sugeriu?
-James no necessita que ningum o anime.
-E por que vai pedir-me que saia com ele?
Cal parou a caminhonete frente  casa e se voltou para olh-la.
-No caso de que no o tenha notado, James  o dom Juan de Willow Grove. Estaria interessada em sair com ele se lhe pedisse?
Olhando aqueles olhos cinzas, Sara se deu conta de que estava interessada, mas no em James.
-No sei. No tinha me ocorrido pens-lo... enfim, acabo de ter um beb.
-E isso o que tem a ver?
Obviamente, Cal estava tentando juntar-la com James.
-Uma me solteira  uma grande responsabilidade se as coisas ficarem srias.
-James gosta de crianas, mas quanto ao caso de ficar srio...
-E voc? -perguntou Sara ento, enchendo-se de coragem.
Cal pareceu surpreso pela pergunta.
-Est perguntando se sairia com uma me solteira?
-Sim -respondeu ela.
-Isso depende -disse Cal, abrindo a porta da caminhonete.
-Depende do que?
-Da mulher.
Sara teria desejado perguntar se gostaria de sair com ela, mas no se atreveu.
Quando ele a tomou pela cintura para ajud-la a descer, ficou olhando seus lbios perguntando-se, no pela primeira vez, como seriam seus beijos. E ento, como se tivesse lido seus pensamentos, Cal se inclinou para ela.
Sara sabia que deveria apartar-se, mas no podia faz-lo. E se esqueceu de tudo quando os lbios do homem roaram os seus. Ele se apartou um segundo depois e Sara se sentiu desiludida, mas depois de olh-la com aqueles olhos cinza prateados, voltou a inclinar-se para marc-la com um beijo de fogo.
-Cal! - Hattie chamou-o da casa.
Ele murmurou uma maldio.
-O que acontece?
Sara sacudiu a cabea, desejando apartar a bruma que a impedia de pensar. Se no tivesse sido pela forte mo de Cal segurando sua cintura, teria cado ao cho.
A governanta se aproximou deles, correndo.
-Um estranho esteve ligando a cada vinte minutos.
-Deixou seu nmero?
-No. Disse que tinha que partir durante alguns dias e que ligaria depois, mas no era a ti que procurava -disse Hattie, agitada-. Diz que  o pai de Jessie.
O corao de Sara parou durante um dcimo de segundo. Como Gary a teria localizado? Quereria lhe tirar a sua filha?
Sara tirou a cadeirinha do carro e entrou na casa com toda pressa.
Tinha seu futuro planejado. Pensava ficar umas semanas mais na casa de Cal e depois procurar um apartamento e um trabalho. Mas a vida que tinha esperado poder oferecer a Jessica tinha terminado antes de comear.
Teria que levar-la dali. Muito longe, onde Gary no pudesse encontr-la. Tinham-na ferido suficientes vezes e no pensava voltar a sofrer. E muito menos deixar que sua filha sofresse.
Embora odiasse ter que deixar Cal, a nica segurana, a nica felicidade que tinha encontrado em muito tempo, era o que devia fazer.
Tinha que faz-lo por Jessica.


Sara passeava pela habitao, nervosa. Necessitava de atividade, algo para acalmar sua ansiedade. Se no fazia algo, comearia a gritar. Pensar em Gary a punha doente.
-O que ests fazendo?
Sobressaltada, Sara se sentou na cama apertando um dos sapatinhos de Jessica contra seu corao. 
-Que susto me deste.
-Desculpe -disse Cal, assinalando a roupa que estava sobre a cama-. O que  isso? 
-Estou... fazendo a mala. 
-Por que? 
-No no te ds conta, Cal?
Ele se sentou a seu lado.
-O pai de Jessie? -perguntou. Sara assentiu-. E pensa em sair correndo sem lutar?
-No o entendes.
-Acredito que ests cometendo um erro. 
Sara suspirou.
-Voc no conhece Gary...
-Tens razo, no o conheo. Mas se eu for te ajudar, necessito saber do que tens medo.
 Sara se aproximou da janela.
-Estou aterrada. No quero que me encontre. 
Cal se aproximou dela e a tomou pelos ombros.
Sara teria desejado apoiar-se nele, mas no podia faz-lo.
-Acreditei que te tinha abandonado.
-Sim, mas Gary  imprevisvel. Tenho medo pelo que pode fazer se nos encontrar.
-Do que tens tanto medo?
-Pode ser que Gary queira me tirar  menina -respondeu ela-. Eu no tenho meios para mant-la e no lhe seria difcil me tirar a custdia.
-Ele tem dinheiro? -perguntou Cal.
-Suficiente para pagar uma casa e um seguro mdico para a menina enquanto que eu... -Sara no pde terminar a frase-. J viu o trailer em que vivia. E agora mesmo, nem sequer poderia pagar o aluguel.
-Voc acha que Gary tentaria te tirar Jessie?
Sara respirou profundamente.
-Se acreditasse que  uma forma de me reter, sim.
-No estar pensando em voltar com ele? -perguntou Cal. No pensava deixar que o fizesse, no o permitiria.
-Ele queria que abortasse, achas que eu voltaria com um homem assim?
Umas semanas antes, Cal tinha pensado que Gary merecia conhecer sua filha, mas isso tinha sido antes de conhecer bem a Sara e a Jessie. No queria que ningum lhes fizesse mal, nunca.
-No, claro que no. Mas, por que sair fugindo?
No queria que Sara se fosse. Embora s tinha estado em sua casa durante duas semanas, acostumou-se a t-la a seu lado, a cuidar dela.
-Partir  o melhor para minha filha -respondeu Sara, abrindo uma gaveta.
Cal a pegou pelo brao.
-E o que  melhor para ti, Sara? Fique aqui comigo e diga a esse Gary que no quer saber nada dele.
Sara fechou os olhos.
-No h forma de raciocinar com Gary uma vez que ele coloque algo na cabea. No posso me arriscar. Tenho que pensar em Jessica.
-Deixa que eu fale com ele. Convencerei-lhe para que te deixe em paz.
-Agradeo-lhe muito, Cal, mas no quero te colocar nisto. Foste to bom comigo que o melhor  que me parta -disse Sara tomando a cadeirinha em que a menina estava dormindo-. Chamarei um txi para que me leve a estao de nibus.
Cal tinha ficado sem ar.
-Onde pensa ir?
-No estou segura -respondeu ela, sem olh-lo-. Pensei ir a Waco. Possivelmente no circuito de rodeios possam me dizer onde est meu pai. J sabe que  nisso que ele trabalha.
-E de onde vais tirar dinheiro?
Sara se mordeu os lbios.
-Tinha pensado que possivelmente poderia me pagar os dias que trabalhei na clnica.
-Sim, claro -disse ele. Quando a olhou aos olhos, o medo e o desespero que viu neles lhe rompeu o corao-. No posso deixar que te parta.
-Tenho que ir  -insistiu Sara, escondendo as lgrimas-. No sabe como eu gostaria de ficar, mas no posso voltar a ver Gary. No quero reviver o passado.
Cal a pegou pelo brao, respirando seu aroma, guardando seu aroma dentro dele.
-Nenhum mdico te deixaria voltar a trabalhar to cedo. S passaram duas semanas, Sara.
-Estive trabalhando para ti.
-Mas eu tenho feito todo o possvel para que no trabalhasse muito -sorriu ele-. No  isso o que vais encontrar a fora.
Sara levantou o queixo.
-No tenho escolha -disse, abrindo a porta-. Obrigado, Cal. Obrigado por tudo.
As lgrimas que ela tentava esconder eram como uma adaga em seu corao. Cal admitia que no devia confiar em seus sentimentos, mas no podia suportar a idia de no voltar a v-la.
Nesse momento lhe ocorreu uma idia. Provavelmente, era a loucura maior que ia cometer desde que rechaou a tradio familiar e decidiu estudar veterinria. Mas tinha que deter Sara. No podia deix-la partir.
-Sara, espera.
-Por favor, Cal. No ponha isso mais difcil.
Cal se deu conta ento de que sua determinao de partir era firme. Sara sacrificaria tudo para proteger a sua filha. E, nesse momento, ele soube que o faria tambm.
De repente, apesar de seus receios, tinha as coisas mais claras que nunca.
-Te case comigo, Sara.



Captulo 6

O que?
-Te case comigo -repetiu Cal.
-No ests falando a srio -disse Sara, incrdula. 
-Nunca falei nada mais a srio.
-Agradeo-lhe mais do que possa imaginar, mas no posso aceitar.
Cal a tomou pelos ombros. O calor e o aroma masculino invadiram seus sentidos e Sara teve que apartar o olhar.
-Por que?
-Porque... no pode ser.  uma loucura. No tem sentido.
-Claro que tem sentido -disse ele, abraando-a. Quando notou os seios dela esmagados contra seu peito, Cal pensou que estava cometendo um erro, um grave erro.
-No o pense. S diga que sim. 
-Perdeste a cabea?
Cal sorriu e Sara desejou poder ficar louca como ele. S daquela vez.
- possvel. Isso significa que sim?
-No sei por que quer fazer isto. Voc no me ama.
-Mas me importa muito o que te acontece e posso cuidar de ti e de Jessie. Alm disso, isto no  por ns...  pela menina.
Sara se sentiu bobamente desiludida. Sabia que os sentimentos de Cal por Jessica eram profundos, mas teria desejado que sentisse o mesmo por ela.
-No te entendo.
-Se nos casarmos, meu seguro mdico cobrir Jessie. Voc sabe que os hospitais so muito caros e qualquer problema que a menina tenha... bom, voc no poderia pagar uma conta de hospital.
Sara olhou a sua filha, sentindo um peso no corao.
-Poderiam lhe negar cuidados se no tiver dinheiro?
-A maioria dos hospitais a atenderia, mas ouvi casos nos quais se negaram. Estou seguro de que voc no quer que isso ocorra a Jessie.
-Voc sabe que quero o melhor para minha filha. 
-Ento, te case comigo.
Sara tinha que admitir que a oferta era tentadora. Em circunstncias normais, a possibilidade de ter seguro mdico para sua filha seria maravilhosa, mas atar-se a Cal com um casamento sem amor era algo que devia meditar.
-Preciso pensar. 
-H outra razo. 
-Qual?
-Quer que Jessie cresa pensando que seu pai no a queria?
-Nunca direi a Jessica que seu pai no quis saber nada dela.
-E no achas que se dar conta quando no tiver ligaes, postais e visitas de Gary? No ter que dizer-lhe Sara. A menina se dar conta. E eu no quero que Jessie cresa pensando que no  suficientemente boa, que no merea que a amem.
Sara piscou para evitar as lgrimas.
-No quero que Jessica pague por meus erros, mas o que posso fazer?
-Te case comigo -respondeu Cal-. Sei que no sou o homem com o qual deveria te casar e admito que no  precisamente o que mais gostaria de neste momento, mas como te disse, isto no  por ns, mas sim pela Jessie. Deixa que seja seu pai, Sara. Deixa que lhe d meu sobrenome.
A Sara tremiam os joelhos.
-Quer adotar a minha filha?
-Sim.
-Eu...
-E isso significa que ter que te enfrentar com Gary. Ter que falar com ele e lhe explicar a situao. Se ele no quiser saber nada da menina, ter que assinar os papis rechaando o ptrio poder.
-No sei -murmurou Sara, indecisa. Era uma loucura, mas Cal era um homem maravilhoso. Sempre pensando nos outros, sempre amvel e considerado. Cal a fazia desejar que as coisas fossem diferentes. Mas no podiam s-lo e ela no queria depender dele. Tinha necessitado toda sua coragem para sobreviver depois que seu pai a abandonasse e, mais tarde, Gary. No, no voltaria a cometer aquele erro. No voltaria a depender de ningum.
Alm disso, Gary lhe tinha ensinado que nenhum homem  fiel. Assim que conhecesse outra mulher, Cal sairia correndo.
-No acredito que funcionasse. Em uns meses estaramos brigando.
-Isso j o veremos, Sara. 
Possivelmente tinha razo, pensou ela.
-Mas, e se no funcionar? No quero cometer um erro que arrune sua vida e a minha.
-Enfrentaremo-nos com os problemas dia a dia. Agora o importante  que possa ficar aqui.
No podia ficar, no podia depender dele, pensava Sara.
-E um acerto temporrio? Poderamos nos separar dentro de... no sei, seis meses, quando as coisas se tranqilizassem.
-Por que seis meses?
-Porque no acredito que seja necessrio estar mais tempo juntos -respondeu ela-. At ento terei encontrado um trabalho e terei um seguro mdico.
O que Sara no disse foi que mais de seis meses seria uma ameaa para sua tranqilidade. Cada segundo que passava a seu lado debilitava um pouco mais suas defesas.
A idia de casar-se com Cal, compartilhar sua cama, fazer amor com ele... Sara ficou sem ar. No podia seguir pensando nessas coisas.
-Seis meses no  tempo suficiente para os papis de adoo.
-Ento, o que prope?
-No sei. Possivelmente no deveramos nos preocupar tanto. Possivelmente deveramos nos casar e ver o acantece.
-Eu sou a nica que ganha algo me casando contigo e no quero te estragar a vida com um filho que no  teu. H muitas coisas a considerar, Cal.
-Um casamento faria que minha me me deixasse em paz -sorriu ele-. No sei por que v tantos problemas. A menos que seja por... o sexo.
-Sexo? -repetiu ela, ficando vermelha.
Cal a olhou, como se quisesse ler seus pensamentos.
-Esse  o problema, verdade? No temos que dormir juntos, Sara.
Obviamente, ele no a desejava. Queria proteger Jessie e estava disposto a aceitar a ela como parte do trato.
-Ah, claro.
-Fazemos isso pela Jessie.
Por um momento, Sara desejou que ele a amasse. Mas era um desejo absurdo.
-Ser um casamento s de nome. Nada mais.
-Maravilha. Ento, est decidido -disse Cal, sem lhe dar tempo para voltar atrs-. Abrirei uma conta no banco em seu nome com cinco mil dlares para que tenha um pouco de dinheiro...
-No quero seu dinheiro -interrompeu-o ela.
-No queria te ofender -desculpou-se Cal-. Tiffany me pediu isso e pensei que voc...
-Pois te equivocaste.
-Mas necessitar um pouco de dinheiro. Quero que possa comprar coisas para Jessie. Afinal, o que vamos fazer  pela menina.
Sara no entendia a dor que enchia seu corao cada vez que ele dizia isso. Mas casando-se com Cal teria tempo para encontrar um trabalho e refazer sua vida.
E para isso teria que resolver seus problemas com Gary de uma vez por todas. Embora no quisesse admiti-lo, Cal tinha razo. Gary tinha direito a decidir se queria ser parte da vida da menina. O casamento com Cal o obrigaria a tomar uma deciso definitiva e ele estaria a seu lado, apoiando-a. Alm disso, se o casamento no funcionasse, separariam-se como amigos. No podia imaginar que fosse de outra forma.
-Se o ests dizendo completamente a srio, sugiro que ponhamos tudo isto por escrito.
-Por que? -perguntou ele, surpreso.
-Porque suponho que querer proteger seus interesses.
-Isso no me preocupa. A questo  se voc confia em mim.
Confiava nele? Cal no ganhava nada casando-se com ela.
-No  uma questo de confiana, Cal.  um assunto de negcios.
-Vendi cavalos por cem mil dlares s com um aperto de mos. Todo mundo sabe que sou um homem de palavra.
-Estou segura de que  verdade, mas no estamos falando de um cavalo. Estamos falando de ti, de mim e de Jessica. E as pessoas mudam -disse ela, muito sria. E, como Gary e seu pai, s vezes as pessoas desaparecem e no voltam mais. s vezes o destino dava cartas ruins e Sara nunca havia sido  afortunada. No, no jogaria com o futuro de sua filha-. Uma vez que tenhamos assinado o acordo com todos os detalhes, casarei-me contigo.
Cal lanou sobre ela um olhar gelado.
-Eu no sou Gary.
-Muito bem -encolheu-se Sara de ombros-. Ento, no h casamento.
-Se pensar seriamente, ver que no h outra sada.
-No vou mudar de opinio -disse ela. Mas sabia que Cal tinha razo.


No dia seguinte, Cal passeava pelo escritrio do juiz, perguntando-se o que tinha feito.
-Sara no vai vir. Isto foi um erro.
James se aproximou de seu amigo e lhe passou uma mo pelo ombro.
-Te acalme, menino. Vais estar esgotado antes de que comece a lua-de-mel.
Cal tentou no pensar na lua-de-mel... que no teria.
-Por que demora tanto? Est comeando a nevar.
Cal se perguntou se Sara iria ao escritrio do juiz. No queria nem pensar que o deixasse plantado ali, como Tiffany o tinha deixado plantado no altar.
-Vir, no se preocupe. Foi s compras.
-As compras? Agora?
-Emprestei-lhe um pouco de dinheiro para que comprasse um vestido.
-Por que tiveste que lhe emprestar...? -Cal se passou uma mo pelo cabelo, nervoso-. Eu tentei lhe dar dinheiro, mas se negou a aceit-lo. Por que no me disse que precisava comprar um vestido?
Porque Sara no era esse tipo de mulher, pensou. Alm disso, no deveria ter tido que dizer-lo. Poderia ter ocorrido a ele.
Mas Cal tinha estado to ocupado perguntando-se por que lhe tinha pedido que se casasse com ele que no tinha podido pensar em outra coisa. Assim que ela aceitou a proposta, tinha-a arrastado  prefeitura para perguntar quanto tempo demorariam para conseguir a licena. Quando o secretrio disse-lhes que havia um perodo de espera de setenta e duas horas, recordou que a espera podia no respeitar-se... se existia uma causa de fora maior.
No havia razo para casar-se depressa e correndo, mas Cal queria faz-lo antes de que o pai de Jessie aparecesse por l. E antes de que Sara mudasse de opinio.
-Obrigado, James. No me tinha ocorrido pensar que Sara necessitava de um vestido.
-Se voc no lhe tivesse pedido que se casasse contigo, teria sido eu a faz-lo.
-O que?
James se encolheu de ombros.
-Sara o passou muito mal e se um casamento solucionar seus problemas, eu me teria casado com ela. Graas a Deus ocorreu a ti primeiro.
-Teria pedido a Sara que se casasse contigo? -perguntou Cal, atnito.
-Sim. Grande susto. Sara  muito especial, mas os dois sabemos que a mim o casamento...
-Certo, bom. Menos mal que eu o pedi.
-Espero que saiba que s muito afortunado -disse James ento.
-Sim, sei.
-Para Sara s uma espcie de heri.
-Eu no sou nenhum heri.
-Ela acredita que sim -sorriu seu amigo-. E acredito que, nestas circunstncias,  melhor que seja voc que se case com ela. Depois de tudo, voc trouxe Jessie ao mundo.
 obvio. Sara ia casar-se com ele.. pela Jessie. Nada mais. A idia no era muito alentadora, mas... por que?
Antes de que pudesse seguir pensando nisso, Sara entrou na habitao como um sopro de ar fresco, seguida de Hattie, que segurava a cadeirinha da menina. Cal ficou sem respirao.
Sara sorriu timidamente. Usava um vestido de renda de cor creme que se colava a suas curvas e um adorno no cabelo.
Cal moveu a cabea para sacudir o embaamento que o impediam de pensar. Mas no devia pensar em nada. Ela estava ali e iam se casar. Isso era o importante.
Teria desejado tomar sua mo, beij-la. Mas recordou a si mesmo que aquele s era um casamento de convenincia. No teriam uma lua-de-mel, no compartilhariam a cama. S compartilhariam seu sobrenome e sua casa durante uns meses.
Ante a insistncia de Sara, tinham posto tudo por escrito. Inclusive tinham assinado os papis do divrcio com a data em branco.
Seis meses depois, seu advogado cumpletaria os papis do divrcio, dissolvendo a unio. Seria tudo muito simples, como se o casamento nunca tivesse acontecido.
Aquele casamento daria a Jessie seu sobrenome e a segurana que a menina necessitava. Tudo estaria arrumado mediante uma cerimnia que no duraria mais de cinco minutos.
Isso era o que os dois queriam. Ou no?
Um casamento sem complicaes, sem dor, sem risco.
Ento, por que quando tomou a mo tremente de Sara, Cal sentiu que aquilo no era tudo o que queria? Por que pensou que alguma vez poderia esquecer o brilho daqueles olhos verdes?


-Estamos aqui reunidos para unir em matrimnio Calvin Lee Tucker e Sara Ann Jamison.
Sara respirou profundamente. Como podia jurar am-lo e respeit-lo se no tinha inteno de faz-lo? Respeitava-o, mas no o amava. Embora gostava de estar com Cal, Sara sabia que o amor era doloroso. No, definitivamente no podia am-lo.
Quando era adolescente, sonhava com o dia de seu casamento, mas nunca tinha sonhado estar com cinco pessoas no escritrio de um juiz.
Jessie escolheu aquele momento para comear a chorar e Cal soltou sua mo para consolar  menina.
-Siga, por favor -disse uns segundos depois.
Cal tomou sua mo de novo. Era um gesto natural, um gesto ao qual poderia acostumar-se... mas no podia fazer-lo. Sara devia recordar a si mesma que seis meses mais tarde, aquela unio seria rompida e cada um iria para seu lado.
-Repita comigo...
-Eu, Sara Ann Jamison... -comeou a dizer Sara, tremente.
Ele apertou sua mo para lhe dar confiana. Seus olhares se encontraram e Sara olhou a sua filha, que descansava tranqilamente sobre o ombro de Cal. Bobamente, perguntou-se se seu pai a teria tido sobre seu ombro alguma vez. Embora isso j no importava. Depois da morte de sua av, Sara no tinha podido localiz-lo. No tinha ningum a quem recorrer, ningum a quem pedir ajuda, ningum que a amasse. Nunca o tinha tido, na realidade. Sua av no a tinha amado, nem seu pai, nem Gary, nem o homem cujo sobrenome levaria a partir de ento.
-Aceito como marido Calvin Lee Tucker.
Marido. Sara o olhou. Por que Cal teria querido casar-se com ela? Um homem como ele devia ter muito xito com as mulheres.
Sara tomou a aliana e a colocou em seu dedo, ignorando o olhar surpreendido de Cal. Tinha usado todo o dinheiro que lhe restava para compr-la. Embora seu casamento no fosse real, algo que no podia explicar a tinha obrigado a comprar a aliana.
Um singelo aro de ouro.
Um smbolo de amor e devoo, fidelidade e confiana.
Sara queria acreditar que podia confiar em Cal, embora lhe resultava difcil. Tinham-na abandonado muitas vezes no passado para poder confiar em algum.
O juiz se voltou para Cal.
-Repita comigo...
-Eu, Calvin Lee Tucker, aceito-te Sara Ann Jamison...
Sara pensou ento que Cal no tinha posto o smoking, s um casaco preto e calas cinzas... com botas.
Mas, por que ia colocar smoking? No ia casar-se por amor. Ia casar-se com uma mulher que tinha tido um filho com outro homem. Sara teve que fazer um esforo para no comear a chorar.
Teria gostado de que as coisas fossem diferentes, mas os sonhos nunca se fazem realidade. Ele tinha deixado claro que s lhe interessava Jessica.
Cal tirou um anel de seu casaco. Era um anel de diamantes que brilhava sob a luz do abajur.
Por que tinha feito isso? Uma aliana simples teria sido suficiente... mas seus pais e amigos certamente esperavam que comprasse a sua esposa um anel como aquele, pensou Sara.
Cal tomou o anel e o ps no dedo.
-Eu lhes declaro marido e mulher. Pode beijar  noiva -disse o juiz.
Segurando Jessie com uma mo, Cal se inclinou para roar os lbios de Sara. Apesar de suas dvidas, ela sabia que parte de seu corao comeava a lhe pertencer. Se lhe importasse um pouco... mas no era assim. Em seis meses, esqueceria-a. Uma inconveniente lgrima apareceu em seus olhos ento.
Cal a olhou, surpreso, e ela tentou dissimular. Que todo seu corpo se acendesse com um s roar daquele homem no tinha nada que ver com o que estavam fazendo ali.


Cal ajudou Sara a entrar na casa, segurando com mo firme a cadeirinha de Jessie. O cho se converteu em uma pista de gelo, mas, felizmente, tinham chegado em casa antes de que cortassem as estradas.
Apesar do frio, Cal no podia evitar um sorriso. Sara se tinha casado com ele. E Jessie era algo assim como sua filha.
Nesse momento, soou o telefone.
-Fale?
-Onde estavas? -escutou a irritada voz de sua me. Cal olhou a Jessie, que acabava de comear a chorar.
-Estive fora, me. Por que?
-Seu pai e eu retornamos da Frana esta manh. Hattie no te disse que tnhamos ligado?
-Sim, acredito que sim.
-Pode vir para nos ver?
-Esta noite no, me -respondeu Cal. 
Os gritos de Jessie comeavam a desesper-lo.
-O que  esse rudo? 
-No  nada.
James estava ajudando Sara a tirar o casaco.
-Estaremos aqui um par de semanas antes de voltar para Paris -disse sua me ento.
Sara tentava tirar a chorosa menina da cadeira mas, como sempre, tinha dificuldades com o cinto.
-Me, tenho que falar contigo sobre o decorador.
-No ter ferido seus sentimentos, verdade? -perguntou a senhora Tucker. Cal fez um gesto com a mo para que calassem  menina, que no deixava de berrar -. Cal, o que  esse rudo?
-No  nada, me -respondeu ele, afastando-se at onde o cordo do telefone lhe permitiu-. E sobre o decorador...
-Mas, querido,  francs. Tem que entend-lo.
-Sim, j, mas pintou a sala de rosa. Tive que despedi-lo.
-O que? Terei que cham-lo e lhe pedir desculpas.
-No, me. Esse homem me encheu a casa de flores, quando o que eu gosto  de couro e de madeira. Eu no gosto das flores e menos da cor rosa.
Jessie seguia chorando e Sara comeou a lhe cantar uma cano de ninar para que se acalmasse.
-Calvin, estou ouvindo chorar um beb? H uma mulher cantando?
Cal no tinha pensado como ia explicar a situao a sua me, mas decidiu atirar-se de cabea.
-Sim. Quem canta  Sara, minha mulher. 
No outro lado do fio houve um silncio. 
-Sua mulher? Quando te casaste? 
-Esta tarde.
-E o que ouo  o pranto de um beb? 
-Sim. Chama-se Jessie Lee.
-Calvin Lee... -sua me no terminou o que ia dizer-. Chama-se assim por tua causa?
-Sim -respondeu ele, orgulhoso.
-Suponho que isso explica o anncio no jornal. Pensvamos que era uma brincadeira -disse a senhora Tucker, incrdula-. Estaremos em sua casa em meia hora.
-Me, as estradas esto geladas... Que anncio no jornal?




Captulo 7

-Queres que eu que faa o que? -perguntou Sara, incrdula.
Cal suspirou, deixando cair pesadamente na cadeira.
-Que aparentes estar apaixonada por mim. 
-O que?
-Vamos, Sara, no me olhe assim. No fiquei louco.
-Eu acredito que sim.
-Bom,  possvel, mas no temos alternativa. Alm disso, no h tempo.
-Seus pais vm para c?
-Sim -respondeu ele-. Eu no esperava ter que me enfrentar com meus pais to cedo.
-Suponho que no lhes far nenhuma graa nosso casamento.
-Temo que no.
-E por que quer lhes fazer mal? 
-No quero lhes fazer mal -protestou Cal. 
-No o entendo.
-No importa.
Sara o olhou, inquisitiva.
-Isto tem algo que ver com a mulher com a qual ias te casar?
-Por que o pergunta?
- um pressentimento -respondeu ela-.  isso, no?
-Em parte. Meus pais e os pais de Tiffany tinham planejado nosso casamento desde que ramos pequenos.
Sara no entendia nada. Esse tipo de acerto era coisa de outros tempos.
-Cresceram juntos?
-Na realidade, no. Meu pai e o de Tiffany so scios. Mas seus pais a enviaram a estudar fora e s nos vamos no Natal.
-Seus pais gostavam dessa garota?
-No -Cal riu -. Era bem mais uma fuso comercial.
-Mas voc a amava?
Cal a olhou ento e a solido que viu em seus olhos lhe rompeu o corao.
-Tentei convencer a mim mesmo que sim. Mas no. Eu no a amava e ela tampouco me amava.
-J vejo -murmurou Sara.
-Minha me est zangada comigo porque no se saiu com a sua. E pode ficar muito desagradvel.
-Voc acredita que devemos fazer-laa acreditar que estamos apaixonados? -perguntou ela. A campainha soou nesse momento e Cal lhe implorou com o olhar . Muito bem. Farei-o -disse Sara ento-. Mas tenho que trocar de roupa.
-Obrigado -disse Cal, tomando-a pelo brao. Estavam muito perto e, por um momento, acreditou que ia beijar-la. Mas o som de vozes no corredor os obrigou a apartar-se-. Ser melhor que vs trocar-te -sussurrou ele, deslizando as mos por seus ombros.
Sara subiu a escada, como se estivesse tonta. Cal tinha estado a ponto de beij-la... e ela queria que a beijasse. Desejava-o com todas suas foras.


Cal olhou a seus pais e depois o jornal que tinha na mo. No sabia quem tinha publicado o anncio do nascimento no jornal, mas sabia que a Sara faria to pouca graa como a seus pais.
Cynthia Tucker estava sentada no sof, to rgida como uma rainha. Nem sequer se incomodava em esconder sua desaprovao.
Seu pai, William Tucker, estava lendo uma revista de economia com sua fotografia na capa.
-Sara descer dentro de um momento.
- essa mulher a razo pela qual Tiffany no foi  igreja? -perguntou sua me.
-Isso so guas passada.
-O que tem feito colocou a seu pai em uma posio muito difcil, Calvin. Temos muitos negcios com a famlia Wainright. Como esperas que explique seu comportamento aos pais de Tiffany?
-No devo nenhuma explicao a ningum, me. Eu apareci na igreja. Ela no. E como seus pais tampouco estavam l, suponho que j conheciam sua deciso.
-E pode culpar Tiffany? Pobrezinha. Provavelmente se inteirou de sua aventura com essa mulher.
Cal suspirou, cansado.
-Me, eu no tinha uma aventura com Sara...
-No o entendo -interrompeu-o Cynthia Tucker-. Lhe enviamos aos melhores colgios e olhe como nos paga.
-Sinto ter sido uma decepo para vocs -interrompeu-a Cal, tentando dissimular a dor que lhe produziam as palavras de sua me-. Mas eu trouxe Jessie ao mundo e me sinto responsvel...
-Voc trouxe essa menina ao mundo? Aqui, como se essa mulher fosse uma gua?
-No -respondeu ele-. Fiz-o em seu carro.
Cynthia ficou boquiaberta.
-William, temos que chamar o nosso advogado. Se algo for mal, essa mulher nos processar.
-No exagere, mulher -disse seu pai-. Tudo saiu bem, filho?
-Sim. Jessie tem alguns problemas respiratrios, mas est bem.
-V-o? No passa nada. Agora que Cal sentou a cabea, poder trabalhar comigo. J  hora de que este menino aprenda o negcio que algum dia ser dele.
-Papai, j disse que no  isso o que quero fazer com minha vida. 
William Tucker o olhou com o cenho franzido.
-Sua me e eu fomos muito pacientes contigo, Cal.  hora de que cresas. Hora de vender este rancho. Agora que ests casado,  um bom momento para que te encarregue do negcio familiar.
-No me ouvem? No quero saber nada do negcio familiar, assim como voc no quer saber nada da vida em um rancho.
-Quando souber o que oferecem por este lugar mudar de opinio.
-O dinheiro no me importa, papai. Quando o vais entender?
William Tucker ficou srio.
-O comprador est disposto a chegar at o milho de dlares.
-Tanto? -perguntou Cal, passando a mo pelo cabelo.
-Ningum te oferecer mais -sorriu sua me.
-Agora tenho que manter uma esposa e uma filha. Ainda que quisesse vender este rancho, no  o momento de mudar de vida.
Cal no pensava faz-lo nem morto, mas para que seguir discutindo, pensou.
-Mas estar trabalhando com seu pai. Eu mesma procurarei uma casa em Dallas, perto do escritrio.
-No vou vender, me -insistiu Cal.
Sara entrou na sala nesse momento. Levava Jessie nos braos e com os jeans e a camisa de flanela no se parecia em nada a Tiffany. Ela no queria dinheiro, nem presentes. Queria trabalhar para ganhar a vida.
Sara fazia que se sentisse a vontade consigo mesmo, com sua profisso, algo que seus pais nunca tinham podido suportar.
Cynthia se clareou garganta.
-Calvin, ests interessado ou no?
-No -respondeu ele, olhando a Jessie. Cada vez que olhava  menina, Cal sentia algo que no podia compreender, mas que o atava a ela... e a sua me.
Sara lhe tinha posto um vestido rosa e um lacinho na cabea. Com o pouco cabelo que tinha, Cal no podia imaginar-se como o tinha feito.
William se levantou e estreitou a mo de Sara.
-Mame, papai, apresento-lhes Sara, minha mulher -disse Cal, tomando-a pelos ombros.
E ento sua me fez justamente o que Cal jamais teria esperado. Comeou a chorar.
-No passa nada, querida -disse seu pai, lhe dando uma palmadinha no ombro.
As lgrimas de Cynthia Tucker rodavam por suas maquiadas bochechas, possivelmente pela primeira vez, pensou Cal.
-Quem dera que tivssemos sabido que estavam na cidade. Nos teria gostado que estivessem presentes no casamento -disse Sara, tentando quebrar a tenso.
Cal a olhou. Quando tinha aprendido a mentir to bem?
James entrou na sala nesse momento e saudou os pais de Cal.
-Encantado de v-los, mas devo ir. Tenho um  encontro com uma garota muito bonita.
Quando James desapareceu, Cynthia se secou as lgrimas.
-No sei por que segue sendo amigo desse James. Nunca chegar a nada.
-Me parece um veterinrio maravilhoso, quase tanto como seu filho -interveio Sara-. Suponho que estaro orgulhos de que Cal e James tenham a clnica veterinria mais famosa do estado.
-Ah, sim? -sorriu Cal.
-No seja humilde. Tenho lido as revistas que tm na clnica e lhes mencionam freqentemente -disse ela, tomando sua mo-. Tm fome? O jantar est preparado.
Cynthia tinha ficado com a boca aberta. Apesar do silncio de seus pais, Cal sabia que s era a calma que precede  tormenta.


-Bom, Sara, nos fale de sua famlia -estava dizendo seu pai nesse momento.
Sara deixou o garfo sobre o prato com mos trementes.
Cal ficou gelado. No tinha considerado a importncia que esse assunto teria para seus pais. Ela nunca falava de sua famlia e, se sua palidez era um sinal, no tinha nenhuma vontade de faz-lo.
-No h muito que dizer.
-Em que trabalham? -perguntou sua me. 
-Minha me morreu quando eu nasci. 
-Morreu?
-Sim -respondeu Sara, apartando o olhar.
-E seu pai? -perguntou Cynthia com o cenho franzido.
-Me, isso no tem importncia -interveio Cal-.  muito tarde e Sara est cansada.
-No passa nada -disse ela-. Quo nico sei de meu pai  que trabalhava em rodeios. Mas faz anos que no sei nada dele. Nem sequer sei se est vivo ou morto.
Sua me abriu os olhos como pratos.
-Por Deus.
Cal deixou seu guardanapo sobre a mesa. Sara tinha tido uma infncia solitria. Como ele. A nica diferena era que ele tinha estado rodeado de criados e babs.
Um olhar ao rosto de sua me e Cal se deu conta de que tinha colocado Sara na categoria de pessoa non grata. Mas no lhe importava o que ela pensasse.
-Descupe, tenho que ir ver minha filha -murmurou Sara ento, levantando-se. Mas Cal pde ver que tinha lgrimas nos olhos.
-Calvin, para mim est muito claro que essa garota s procura seu dinheiro -disse sua me quando Sara desapareceu.
-Equivoca-te.
-No posso acreditar que tenha deixado escapar Tiffany, uma garota preciosa e muito elegante, por uma... uma...
-No o diga, me -advertiu-a Cal-. Sara no se parece nada com Tiffany. Ela tem um corao onde Tiffany tinha uma caixa de jias.
-No posso acreditar que esteja to cego -replicou sua me.
-J est bem. No siga.
-Estou segura de que seu pai poderia conseguir uma anulao rpida insistiu ela-. Uma simples anlise provaria que a menina no  tua filha. No vou permitir que meta as mos no dinheiro da famlia Tucker.
Cal tentou controlar-se.
-Sara no quer meu dinheiro. Ela mesma insistiu em assinar a separao de bens. Eu trouxe Jessie ao mundo e me sinto responsvel por ela. E no penso em anular meu casamento.
O telefone comeou a soar nesse momento, mas Cal o ignorou. Estava farto das interferncias de seus pais. Mais que farto.
-Te acalme, filho -disse William Tucker-. Cynthia, Cal assinou a separao de bens, assim no h nada com o que preocupar-se.
-S estou tentando defender os interesses de meu filho -protestou ela.
-No, me. S est preocupada porque meu casamento com Sara te far ficar mal diante de suas amizades. Pois deixa que te diga uma coisa, jurei am-la at que a morte nos separe e isso  o que penso fazer -disse Cal, contendo sua ira. Am-la? Havia dito aquilo sem pensar. No a amava... ou sim? Cal se passou a mo pelo cabelo. Pensaria nisso mais tarde-. Se no podem aceitar meu casamento com ela,  problema seu -acrescentou, levantando-se da cadeira.
Hattie entrava na cozinha nesse momento. 
-James acaba de chamar. Parece que as estradas esto cortadas pela neve, assim vo ter que ficar e dormir aqui.


Sara levantou a cortina e viu os enormes flocos de neve que cobriam o cho. Apoiando o rosto sobre o vidro frio, fechou os olhos.
Depois do casamento, tinha tentado convencer a si mesma de que tudo ia funcionar. Mas isso tinha sido antes de conhecer os pais de Cal. Se fosse por sua me, ela estaria em um nibus com destino a qualquer parte.
A idia de partir do nico lugar no qual tinha encontrado paz e tranqilidade fazia que os olhos de Sara se enchessem de lgrimas. Durante aquelas semanas, a casa de Cal havia se convertido no nico lar que Sara tinha tido.
A porta do dormitrio se abriu nesse momento e Cal entrou, fechando a porta atrs dele.
-Coloque suas coisas em uma mala.
A Sara lhe fez um n na garganta. O que tinha esperado? Cal a estava jogando de sua casa.
-Demorarei uns minutos em...
-Vamos, ande depressa -disse ele, abrindo o armrio.
-O que ocorre? -perguntou Sara.
Cal ignorou a pergunta enquanto atirava blusas e jeans sobre a cama.
-Falaremos mais tarde. Meus pais esto a ponto de subir.
ento iam pegar-lhe? perguntou-se Sara, assustada.
No podia acreditar que Cal queria jogar-la de sua casa naquela mesma noite, com as estradas cobertas de neve.
Quando terminou de atirar suas coisas sobre a cama, Cal tomou as quatro pontas do edredom.
-Abre a porta.
-Onde vamos? -perguntou ela, incrdula.
-Venha, ande depressa.
Sara quase tinha medo de sair ao corredor porque no sabia o que a esperava.
-O que est acontecendo, Cal?
-Quita -sussurrou ele, arrastando o bero de Jessica com a menina dentro.
-No demorarei nem um minuto em arrumar a habitao, senhora Tucker -escutaram a voz de Hattie no corredor.
-Ande depressa. Tenho enxaqueca -disse Cynthia. Podiam ouvir seus passos na escada.
Cal abriu a porta de seu dormitrio, colocou o bero, atirou o edredom cheio de roupa sobre sua cama e empurrou Sara para dentro antes de fechar a porta.
-Quase nos pega -sussurrou, olhando  menina que, felizmente, no tinha despertado.
Sara teria desejado que ele se apartasse. A escurido e a proximidade do homem a perturvavam muito.
Sem pensar, Cal a atraiu para ele. O corao de Sara pulsava desbocado e ao sentir algo duro entre suas pernas se deu conta de que ele tampouco era imune.
-Cal...
-Sim?
-O que est acontecendo? -perguntou Sara, apoiando as mos sobre seu peito.
-Minha me quase nos pega.
Sara olhou ao redor. A habitao de Cal no tinha um s toque feminino. Havia uma cmoda de madeira, sem espelho, uma mesa de escritrio e uma enorme cama com um edredom xadrez escuro. 
-Nos pegar?
Sara comeou a perguntar-se se Cal dormiria em pijama ou... nu.
-As estradas esto fechadas e meus pais vo ter que dormir aqui.
-O que?
-J sei que isto no era parte do trato, mas eu no sabia que iam ter que ficar -disse Cal, passando a mo pelo cabelo-. Mas no passa nada. Os dois somos adultos.
-O que est dizendo? Cal tentou sorrir.
-Que at que meus pais se vo, vais ter que compartilhar minha cama.
-No posso fazer isso.
-Temos que faz-lo -insistiu ele. 
-Nego-me.
-Ento, casamo-nos para nada.
Sara no podia pensar com claridade tendo-o to perto e teve que dar um passo para trs.
-Eu no aceitei me deitar contigo. 
-Compartilhar dormitrio no  to horrvel.  uma questo de geografia -disse Cal, aproximando-se do bero de Jessie-. Na minha opinio, no tem por que haver nenhum problema.
-Isso  fcil de dizer -replicou Sara, cruzando-se de braos.
-No temos escolha. Se quiser que uma tolice como dormir juntos estrague tudo, no  a mulher que eu pensava que era -disse Cal ento-. Olhe, o nico que eu tiro deste casamento  tirar a meus pais de cima de mim. Mas se me vem dormindo no sof, sabero que o nosso  um casamento falso. Assim, voc goste ou no, vai dormir em minha cama.
-No posso -insistiu ela.
-Por favor, Sara. Faz-o por mim.
Sara sabia que no tinha escolha. Depois de tudo o que Cal tinha feito por ela, no podia lhe negar um favor.
O telefone voltou a soar ento e Cal desprendeu o auricular.
-Fale?... Fale? Desligaram.
Sara olhou a cama. Deveria sair correndo dali, mas sabia que podia confiar em Cal.
-De acordo. Fico -disse por fim. Ao ver o sorriso do homem, aproximou-se e lhe cravou o dedo indicador no peito-. Espero que no te ocorra nenhuma tolice.
-O que voc quiser, querida -Cal riu.
Mas ao imaginar Cal entre os lenis revoltos, Sara se deu conta de que ele no era o nico a quem teria que vigiar.


Cal limpou o espelho do banheiro com uma toalha e colocou uma cala de pijama com cavalos marinhos... o presente de uma antiga noiva. Tinha esquecido que o tinha, mas o encontrou quando procurava lugar no armrio para as coisas de Sara.
Quando saiu do banho, viu Sara sentada na cama com Jessie nos braos.
-Posso entrar?
-Espera um momento -respondeu ela, cobrindo o seio com uma toalha-. Certo.
Cal no entendia por que Sara se cobria cada vez que dava o seio a Jessie.
-Dar o seio a um beb  a coisa mais natural do mundo. Vejo-o todos os dias, assim no vou assustar me.
Sara se levantou para colocar  menina no bero.
-Porque  veterinrio?
-Sim -sorriu ele.
-Ento, tampouco te importaria que James me visse dando o seio a Jessica?
-No! No confiaria em James com uma mulher embora estivesse tapada at os olhos.
Cal se aproximou do bero. A menina ficou adormecida de costas, com o traseirinho para cima. Estava para comer-la. Cada dia que passava, o desejo de proteg-la-se intensificava.
-Por que devo confiar em ti? -perguntou ento Sara.
Cal se encolheu de ombros. Se sua reao ao v-la em sua cama era uma indicao, provavelmente no deveria confiar nele. Mas se o disesse, Sara sairia correndo. Em qualquer caso, no podia admitir que ele era como James.
-Eu te vejo como a me de Jessie.
-Sim.
Cal tomou sua mo e a olhou nos olhos.
-Casamo-nos pela menina, Sara.
Ela olhou o peito nu do homem, como se estivesse hipnotizada. Sara no se dava conta do efeito que exercia nele, mas se seguia olhando-o daquela forma, logo se daria conta.
-Tudo foi muito precipitado, mas faria qualquer coisa pela minha filha.
-Ter que confiar em mim. Teremos que aparentar ser um casamento normal at que meus pais se vo. E depois, tudo ser mais fcil.
-Quanto tempo vou ter que ficar aqui?
Cal percebeu ento de que ela no tinha fechado o ltimo boto do pijama. Seus seios apareciam sob o fino tecido e, sem pensar, deslizou um dedo por seu decote.
-Que ests fazendo?
Cal pareceu despertar de um sonho.
-Desculpe.  que... esqueceste te fechar um boto -murmurou ele, envergonhado.
-Ser melhor que durmamos um pouco. Jessica despertar dentro de algumas horas.
Sara se deu a volta, deixando a Cal parado no lugar, recordando-se a si mesmo que ela era a me de Jessie.
Mas tambm era uma mulher. Sua mulher.
Durante aquelas duas semanas tinha desejado beij-la, abra-la.., e aquela noite a tinha em sua cama. Cal soube que lhe esperava uma noite muito longa.
O telefone voltou a soar e ele respondeu imediatamente.
-Al?
No havia ningum no outro lado. Possivelmente as comunicaes estavam cortadas pela tormenta, pensou. Sara se meteu entre os lenis, suspirando, e Cal decidiu que era o momento de partir. 
-Onde vais?
-L fora -respondeu ele. No queria nem olh-la. V-la em sua cama o fazia imaginar seu corpo nu, suado... Tinha que sair dali antes de que fizesse alguma tolice.
-Mas se l fora est nevando -disse Sara. 
-Por isso.



Captulo 8

Cal no podia recordar um sonho que lhe tivesse parecido mais real. Gostava de sentir aqueles cachos suaves sob seu rosto e seu corpo quente que estava colado ao dele. Cal introduziu a mo por debaixo do pijama para acariciar seus seios e encontrou algo que parecia uma gaze. Devia ser uma advertncia de sua mente para que deixasse de trabalhar tantas horas na clnica.
Ela se voltou em seus braos, suspirando. Seus lbios se encontraram em um beijo que ambos levavam muito tempo esperando.
A mulher cravava as unhas em suas costas enquanto se esfregava contra a evidncia de seu desejo. Quando colocou uma perna entre as suas, Cal deslizou a mo at o cs do pijama. Uma tortura deliciosa.
Um som lhe chegou do outro lado do dormitrio e a mulher que estava a seu lado ficou muito rgida.
-Cal? -escutou uma voz.
-Sim -murmurou ele, meio dormindo. Como era possvel que a mulher de seus sonhos tivesse se convertido na Sara?
Por fim, Cal se deu conta de que o rudo que tinha escutado era Jessie.
-Aparta a mo.
Cal apartou a mo de seu seio, tentando conter o desejo que no tinha desaparecido de todo.
Sara saltou da cama.
-Por que fizestes isso?
-No o tenho feito intencionalmente -respondeu ele.
-Como esperas que eu o acredite se...? -comeou a dizer Sara. Os gritos de Jessie aumentavam de volume-. Quietinha, querida. No passa nada, estou aqui -murmurou, tomando  menina nos braos. Meio dormindo, Cal a observou trocando a fralda  menina-. Tenho que lhe dar o peito.
-Faa-o. Prometo no olhar.
-No posso lhe dar o peito se ests olhando -replicou Sara.
-No vou atacar-te.
Sara o olhou sem dizer nada durante uns segundos. Depois se sentou sobre a cama e se cobriu com uma toalha.
-Toma, te apie aqui, estar mais cmoda -disse Cal, colocando um travesseiro em suas costas.
-Desculpe, no queria te falar assim -murmurou ela, sem olh-lo.
-No acreditar que esperei at que estivesse dormindo para me aproveitar de ti?
-No. Mas no sei como aconteceu.
Tinha sido qumica, pura e simples. Mas Cal no disse nada.
- que estvamos muito perto e...
-E o que?
-Estvamos sonhando -disse ele. Sara levantou os olhos ao cu-. No aconteceu nada.
Ela o olhou, indignada.
-Chamas nada a pr a mo em meu seio?
-Considerando o que poderia ter passado, no  nada -sorriu Cal.
-O que  isso? -perguntou Sara assinalando umas marcas vermelhas que ele tinha nos ombros e no peito.
-Suas unhas.
Sara fechou os olhos.
-Sinto muito. No sei como aconteceu... Isto no vai funcionar.
-Te acalme. Meus pais partiro amanh e uma noite no vai matar-nos -insistiu Cal-. Se for para te sentir melhor, dormirei no cho.
No gostava de dormir sobre o cho de madeira, mas se Sara se sentia mais cmoda assim, teria que faz-lo.
Ela negou com a cabea.
-No podemos fazer nada para que... isto no volte a acontecer?
Cal sorriu.
-Sara, estamos casados.
-O que quer dizer?
Cal no se atrevia a lhe dizer o que estava pensando. Embora ela estivesse de acordo, e no o estava, ainda no tinha se recuperado do parto.
-No se preocupe. No vai acontecer nada.
-Promete-o?
Cal seguia sentindo em seus lbios o sabor dos de Sara. Gostaria de voltar a beij-la. Gostaria de fazer muitas coisas mais na realidade, mas no podia. Manter-se afastado dela no lhe ia resultar fcil.
-Sim, prometo-lhe isso.
Se as estradas seguiam cortadas pela manh, chamaria a Guarda Nacional para que as limpassem. Ou as limparia ele mesmo com uma p. Tinha que tirar seus pais dali como fosse. No poderia suportar outra noite com Sara em sua cama... mas no em seus braos.


Ao amanhecer, Sara ouviu Jessica movendo-se no bero.
No tinha dormido muito. Tinha mantido os olhos fechados, escutando a respirao tranqila de Cal. No sabia que poderia sentir tanto prazer simplesmente estando deitada ao lado de algum.
Quando ele se levantou da cama, Sara no pde apartar os olhos de suas longas e bronzeada costas.
-Bom dia, pequenina. Dormiste bem? -disse Cal, tirando Jessica do bero-. Suponho que terei que te trocar a fralda.
Sara o observou enquanto a trocava. Parecia tranqilo, seguro de si mesmo. Ver Cal com sua filha a fazia desejar que Jessica pudesse crescer com um pai que a quisesse... um pai como ele. A pele branca da menina contrastava com o peito masculino coberto de plo obscuro e... Sara no podia deixar de olhar a linha de plo que terminava no cs do pijama.
Desejava que ele a abraasse, que a protegesse, como fazia com Jessica. Mas naquele momento s precisava proteger-se de si mesma e de seus pensamentos, que no eram nada maternais.
Sara no podia esquecer o dano que lhe tinham feito os homens.
Comeando por seu pai.
Por causa da afeio de seu pai ao lcool e sua incapacidade para encontrar trabalho, ela se tinha acostumado a fazer de tudo para sobreviver, como pedir um sanduche a suas companheiras de colgio. Sara sentiu um calafrio ao record-lo.
Um dia lhe havia dito que voltaria para os rodeio e, apesar de seus protestos, tinha-a levado a casa de sua av. Sara se recordava a si mesma na janela, esperando que seu pai se voltasse para lhe dizer adeus com a mo. Mas ele no se voltou.
A separao de seu pai tinha sido muito mais dura que a separao de Gary, mas ento ela era uma menina.
Na realidade, depois de conhecer Cal, Sara tinha descoberto que nunca tinha amado a Gary.
-Algum te necessita -disse Cal ento, pondo Jessie em seus braos-. Vou fazer caf. Quer descer  cozinha ou prefere que te traga uma taa?
-Descerei em cinco minutos -disse ela, sem olh-lo-. Cal, ponha uma camisa.
Cal olhou as marcas vermelhas em seus ombros.
-Por que? -perguntou, sorrindo.
-Porque... vais pegar um resfriado.
-No acredito -sorriu ele, saindo da habitao.
Cal a afetava mais do que queria reconhecer. Aquela manh tinha tido que fazer um esforo para no toc-lo. E ele tambm a desejava, estava segura. No passado, contentou-se com isso, mas no voltaria a faz-lo. Queria amar e ser amada.
Sara pensou em Cal e em seu casamento com ele. Aquela mentira no podia funcionar. E tinha que encontrar a forma de que seu corao no se acelerasse cada vez que o olhava.


-As estradas seguem fechadas e temo que meus pais tm que ficar para dormir de novo. Sinto muito -desculpou-se Cal na noite seguinte.
Sara estava tirando algo da gaveta da cmoda. 
-No  tua culpa. Nos... arrumaremos. 
-Onde est a menina?
-Com seus pais, na sala. Tive que subir correndo para procurar uma fralda.
Cal ficou boquiaberto. 
-Meus pais esto com a menina?
-No so to maus, Cal. E acredito que seu pai no desgosto de todo.
-Sim.
Quo nico importava era que ele gostava de Sara. E gostava de muito. Muito. 
-No quer que lhe deixem em paz?
-Sim.
-Ento, tero que aceitar nosso casamento. E eu tenho uma arma secreta para isso. 
-O que?
-Jessica -sorriu Sara-. Acredito que um dia sero uns avs maravilhosos.
Cal a olhou, incrdulo.
-Venha, Sara. Foram uns pais espantosos. Quem me criou foi um exrcito de babs.
-Ao menos, voc vivia na mesma casa com eles. 
-Sim, claro. Mas no se ocupavam de mim.
-Meu pai enviava dinheiro cada ms, mas nunca voltei a v-lo -disse Sara-. No julgue a seus pais to duramente. Ao menos, tenta te dar bem com eles.
-Certo, mas no espere nenhum milagre. 
Desceram juntos a sala e antes de entrar, Cal tomou-a pela cintura.
-O que ests fazendo? -perguntou Sara em voz baixa. 
-Estou tentando aparentar que somos recm-casados -sorriu ele, aproveitando-se descaradamente da situao.
-Eu no gosto destas mentiras. Ao final, vamos estragar tudo.
-Voc se importe comigo at que meus pais se vo. 
Quando entraram na sala, Cal se deixou cair no sof e a sentou sobre seus joelhos. Sara tentou protestar, mas ele a segurou com fora.
O pai de Cal tinha Jessica nos braos e a olhava como se no soubesse o que fazer com ela. 
-William, me d  menina -disse Cynthia. Jessie comeou a chorar nesse momento-. O que lhe passa?
-Est com sono -respondeu Sara.
-E por que no dorme? -perguntou a me de Cal, surpreendida.
Nesse momento, Cal agradeceu ter sido criado por babs. Certamente tinha sido uma bno.
-Cal, por que no convida a seus pais a nos visitar de novo no fim de semana que vem? -perguntou Sara ento.
Cynthia Tucker pareceu surpreendida.
-Pois, no sei. Terei que ver em minha agenda. Acredito que tenho algo no fim de semana que vem.
-E a verdade  que eu estou muito ocupado na clnica -disse Cal, olhando Sara com reprovao.
-Eu tenho muito trabalho, sinto muito -desculpou-se seu pai.
Cal tinha acostumado que as reunies familiares dependiam dos negcios de seu pai e as festas de sua me, mas a expresso de Sara lhe dizia que no lhe parecia bem. Quanto antes se desse conta de que nada, nem seu casamento nem a menina, fariam mudar seus pais, melhor.
Ele estava acostumado  indiferena de sua famlia e desejava que Sara tambm lhe fosse indiferente.
Mas naquele momento no podia imaginar a vida sem ela.


Sara sentiu a presena de Cal antes de sentir a mo do homem sobre seu brao.
-Esta noite vi algo que nunca tinha pensado ver. Jessie impressionou a meus pais. Esta menina obteve o que os negcios, as festas e os altos dignatrios no conseguiram. Meus pais estavam fora de seu elemento. 
-Um beb exerce esse efeito -sorriu ela.
Cal se deixou cair sobre a cama e quando soou o telefone, Sara atendeu para que ele no tivesse que levantar-se.
-Al?
-Ol, preciosa. No sabe o que tive que fazer para te encontrar.
Sara sentiu um calafrio ao escutar a voz de Gary. Ficou to nervosa que lhe tremiam os joelhos. Cal percebeu que ocorria algo e se levantou de um salto.
-O que se passa?
Ela fechou os olhos, tentando concentrar-se. 
-Como me encontraste?
-Karen viu seu nome no jornal, na pgina de nascimentos. Por que o fizestes, Sara? 
-No tinha alternativa -respondeu Sara, quase sem voz.
-Temos que falar -disse Gary ento. 
Era uma ordem, no uma sugesto.
-Porqu?
-Deveria ter me dito isso. Estvamos de acordo em que...
-No, Gary. No estvamos de acordo em nada -interrompeu-o ela-. Fiz o que tinha que fazer.
-Enganaste-me.
-Olhe quem fala de enganar.
-Olhe, no quero discutir. Quero ver-te. Temos que falar de ns.
-No h um ns, Gary. Se quer ver Jessica, de acordo. Mas te advirto uma coisa, a menina  minha.
-Sei, sei. Podemos nos ver hoje? 
-No -disse Sara.
-Por que?
-As estradas esto bloqueadas.
-Muito bem. Amanh irei ver-te. Sinto muito tudo o que te disse. No sei o que me aconteceu.
Apesar da raiva, Sara no pde conter uma gargalhada.
-Guarde as mentiras para outra, Gary. 
-Quando nos virmos, mudar de opinio. 
-Est perdendo tempo -insistiu ela-. Deveramos deixar as coisas como esto.
-Quero te explicar o que aconteceu.
Sara tinha acreditado nas mentiras de Gary uma vez, mas no voltaria a faz-lo.
-No  preciso que me expliques nada. No me importa.
-Sei onde vives, Sara. Estarei ai amanh e falar comigo.
A conexo se cortou nesse momento e Sara ficou com o telefone na mo, sem saber o que fazer.
No queria ver Gary, embora sabia que ele tinha direito a ver sua filha. E tambm sabia que se tentava tirar-la dela, lutaria por ela com unhas e dentes.
-Ests bem? -perguntou Cal.
-Sim. No entendo como me encontrou. Sei que publicaram o nascimento de Jessica no jornal, mas...
-Tenho que te mostrar algo -disse Cal ento, tirando um jornal da gaveta.
Sara olhou uma seo que tinha sido marcada com um marcador.

No dia 9 de fevereiro, no hospital Mercy, nasceu a primeira filha de Sara Jamison e Calvin Lee Tucker, a quem seus pais batizaro com o nome de Jessie Lee Tucker. Tanto a me como a menina se encontram em perfeito estado de sade.

-Jessie Lee Tucker? -leu Sara, atnita-. Por que publicaram isto?
-No sei o que disse  enfermeira naquela noite porque estava muito nervoso, Sara.
Ela o olhou, incrdula. Cal se tinha casado com ela para que seus pais o deixassem em paz. Teria dado aquela informao no hospital pela mesma razo?
Sara decidiu ento que todos os homens eram iguais.
No havia um s no qual pudesse confiar.


Sara estava observando Cal da janela e se voltou ao escutar uns passos.
-Bom dia, senhora Tucker. Dormiu bem? 
-To bem como podia esperar-se nestas circunstncias -respondeu Cynthia, olhando pela janela-. No sei por que Calvin insiste em trabalhar como veterinrio.  ridculo.
Sara escondeu um sorriso.
-Lhe encanta seu trabalho. J lhe disse que  um dos melhores veterinrios do estado.
-Sim, mas h outras coisas que faria bem se tivesse interesse.
-Por exemplo?
-Levar os negcios de seu pai -respondeu a mulher, tirando um penugem inexistente do vestido.
-Mas Cal no gosta de estar encerrado em um escritrio. Gosta de trabalhar ao ar livre. Olhe-o -disse Sara, assinalando a janela. Cal estava no curral, tentando tranqilizar a um cavalo ao qual tinha que enfaixar uma pata-. Eu estou muito orgulhosa dele. E suponho que voc tambm.
-Orgulhosa? -repetiu a me de Cal, surpreendida-. Achas que devo estar orgulhosa de que meu filho atire sua vida pela janela?
-No acredito que Cal tenha que seguir os passos de seu pai para ter xito na vida.
-O trabalho de Cal ... perigoso.
-No acredito -sorriu Sara-.  mais perigoso estar todo o dia trocando de avies. Cal  um magnfico veterinrio e uma pessoa encantadora. Todos seus clientes o adoram. E voc se sentiria orgulhosa dele se pensasse sobre isso um pouco.
-Est me dizendo o que tenho que fazer?
-Claro que no -respondeu Sara-. S estou tentando que entenda a seu filho.
-Conheo Calvin muito melhor que voc e tenho planos para ele que no tm nada que ver com os animais... nem com um casamento que ele no deseja.
-Entendo que a surpreendesse um casamento to repentino, mas espero que com o tempo...
-No sei a que est jogando, jovem, mas no te faa iluses -interrompeu-a Cynthia-. Cansar-se de ti como se cansa de tudo.
-No a entendo.
-Calvin nunca teve uma relao longa com nenhuma mulher. No sei o que esperas tirar disto, mas...
-O que acredita que espero tirar?
-Dinheiro,  obvio. Mas no o conseguir. 
Sara olhou  me de Cal, entendendo ento a solido do homem.
-Senhora Tucker, pode ser que lhe surpreenda ouvir isto, mas eu no quero seu dinheiro.
Cynthia assinalou o anel de diamantes. 
-No quer seu dinheiro? 
-Nem um centavo -respondeu Sara.
-Ento, por que te casaste com meu filho? 
Sara se deu a volta para olhar Cal. Estava acariciando ao cavalo, lhe dizendo coisas em voz baixa enquanto lhe colocava uma atadura. Estava muito bonito com os jeans e...
-Porque estou apaixonada por ele.
Havia dito aquilo sem pensar. No estava apaixonada por ele. S estava tentando convencer a sua me de que Cal merecia seu respeito. Era parte da charada, como o anel de diamantes. 
-Apaixonada? -repetiu Cynthia, incrdula.
-Sim. No sei por que lhe parece to estranho. Cal  um homem maravilhoso.  perfeito. Qualquer mulher ficaria louca por ele.
-Calvin -disse a me de Cal ento-. No sabia que tivesse tantos talentos ocultos.
-Eu tampouco -disse Cal da porta.
Sara se voltou, vermelha como um tomate. Ele estava sorrindo de orelha a orelha.
-Tm aberto as estradas? Eu gostaria de ir antes de que sua mulher siga me fazendo a lista de suas virtudes.
-Papai est no carro. Parece que podem ir.
-Hattie, me d minha bolsa e meu casaco -disse Cynthia, saindo da sala a toda pressa-. Tenho um milho de coisas que fazer.
Cal olhou Sara, que no se atrevia a lhe devolver o olhar.
-Perfeito, maravilhoso, qualquer mulher ficaria louca por mim?
-S o disse para convencer a sua me -replicou ela, cruzando-se de braos. Cal se aproximou e a tomou pela cintura-. O que ests fazendo?
- pela minha me. Depois de tudo, tenho que manter minha reputao.
Sara conteve o flego. Sabia que Cal ia beijar-la e no queria ficar nas pontas dos ps, no queria esquecer-se de respirar quando ele a queimasse com seus lbios.
Mas o fez. Muito antes de que Cynthia Tucker entrasse na sala.
Quando Cal a soltou, quase lhe dobraram os joelhos.
-No seja vulgar, Calvin -escutaram a voz de sua me-. Vem nos despedir.
Aquela noite dormiria sem ter a Cal a seu lado.
Aquela noite dormiria sozinha. Outra vez.




Captulo 9

Cal e Sara se despediram de seus pais no alpendre e entraram na casa sem dizer nada. Ele no tinha esperado que Sara se negasse a falar da chamada de Gary.
No a entendia. Ela era sua mulher e Jessie sua responsabilidade, mas Sara insistia em que podia cuidar de si mesma.
-Temos que falar.
Sara se inclinou para acariciar a Sheep.
-No posso. Tenho coisas que fazer.
-No podemos seguir como se no estivesse acontecendoa nada -insistiu Cal-. Ignorar Gary no vai fazer que desaparea.
- melhor no falar do assunto.
-s minha mulher -Cal no tinha querido gritar, mas o tinha feito.
-Se tiver algo que dizer, diga-o sem despertar  menina.
-Acredito que, como minha mulher, deve me contar as coisas que te preocupam.
-S  meu marido no papel -replicou ela, saindo de novo ao alpendre com Sheep-. Obrigado, mas eu tomo minhas prprias decises.
-Quer deixar de correr? -exclamou Cal. Sara parou de repente e os dois se chocaram-. Mas o que...?
Um estranho estava subindo os degraus do alpendre, olhando Sara de tal forma que Cal teria desejado tir-lo dali a pontaps.
Sheep comeou a grunhir e Cal escondeu um sorriso. Melhor. At os animais intuam que aquele homem era um canalha.
-Bom dia -disse Cal, tomando Sara pela cintura em um gesto possessivo e protetor.
Gary o olhou durante um segundo e depois voltou a olhar para ela.
-Ests muito bonita, Sara.
Cal tinha os dentes to apertados que lhe doam as mandbulas.
-Deveria ter ligado antes de vir -disse Sara.
-Disse-te que viria hoje, querida.
-Parece-me que no nos conhecemos. Sou Cal Tucker, o marido de Sara -disse Cal, com expresso ameaadora.
O estranho o olhou de novo, mas s durante um segundo.
-Vejo que no perdeste tempo.
-Se tiver algo que me dizer diga logo -disse Cal, furioso. No era somente uma pantomima para que Gary a deixasse em paz. Estava realmente furioso e... ciumento.
-Quando te casaste? -perguntou Gary, ignorando a Cal de proposito.
Ele atraiu Sara com um gesto to possessivo que se surpreendeu a si mesmo. Nada daquilo estaria acontecendo se no tivesse dormido com ela, se no tivesse desfrutado da suavidade de sua pele. Se a idia de perd-la no o deixasse louco.
-No  teu assunto -disse Sara-. Voc me deixou e no h mais que falar.
-Te encontravas com ele enquanto vivamos juntos? -perguntou Gary ento.
Cal no o pde suportar mais.
-Me alegro de que o tenha perguntado porque agora tenho uma desculpa para fazer o que quis fazer desde que ps os ps em minha propriedade.
Gary deu um passo para trs.
-No, Cal. No faa isso -rogou-lhe Sara. 
-De quem  a menina? -perguntou Gary. 
-Minha -respondeu Cal.
-Por favor, Cal... Jessica  sua filha, Gary. Quer v-la?
-Aposto que tem coisas mais importantes a fazer -disse Cal, apertando os punhos.
-Sim, eu gostaria de v-la.
-No vais entrar em minha casa -insistiu Cal. 
A idia de perder Sara e Jessie lhe parecia naquele momento muito real. Era insuportvel.
-No tinha que trabalhar? -murmurou Sara. 
-No.
-A verdade  que eu tenho um encontro dentro de quinze minutos -disse Gary ento-. Que tal se vier amanh s dez horas?
-Por que no nos diz o que  o que quer? 
-Cal, por favor...
-Acompanha-me ao carro, Sara? -perguntou Gary com um sorriso.
-Sheep, v com ela.
O cachorro a seguiu at o carro e ficou vigiando Gary.
Enquanto os observava, Cal fazia uma lista de razes pelas quais Sara no deveria voltar a falar com aquele homem. E a primeira era que, gostasse ou no, estavam casados. E aquele homem era uma ameaa para a felicidade de Jessie.
Teria que convencer-la de que no devia voltar a v-lo. Nunca tinha conseguido convencer a seus pais nem a Tiffany para que vissem as coisas de seu ponto de vista, mas poderia convencer Sara. depois de tudo, era sua mulher.


Sara cravou seu dedo indicador no peito de Cal.
-No sei no que estava pensando, mas no vou deixar que volte a te comportar assim.
-Esperava que estendesse um tapete a esse canalha? esqueceste o que te fez, o que queria que fizesse com Jessie? Maldita seja, Sara, sou seu marido. Deixa que cuide de ti.
-No esqueci o que Gary me fez -disse ela-. Mas  o pai de Jessica. No recorda o que me disse no hospital? Se Gary estiver disposto a mudar, embora eu no goste, terei que lhe dar uma oportunidade. Ao fim e ao cabo,  o pai de Jessica.
-Esse homem  um canalha -protestou Cal-. Se v a primeira vista. S quer aproveitar-se de ti. Jessie no lhe importa nem um pouco.
-Procurou-me ao saber que tinha uma filha -disse Sara. Sabia que Cal provavelmente tinha razo, mas no podia deixar de recordar sua prpria infncia e como tinha tido saudades do calor de seus pais. Sara queria que Jessica tivesse o carinho que ela no tinha tido, o carinho que Cal lhe oferecia. Mas Cal no era seu verdadeiro pai.
-Esse homem quer que voltes com ele!
-Equivoca-te. O que houve entre ns terminou.
-Deixa de mentir a ti mesma -replicou Cal, furioso-. Quando esse tipo te olha, no est pensando em Jessie.
-No me importa o que ele quer. Darei-lhe uma oportunidade com Jessica e se quer ser seu pai, terei que aceit-lo. Possivelmente mudou, Cal.
-No acredito. Esse tipo de homem no muda nunca.  um egosta que quer tudo sem dar nada em troca.
-Quando Jessica for mais velha, ela mesma decidir se quer ver Gary, mas at ento  minha responsabilidade manter o lao entre pai e filha.
-No pode obrigar Gary a se comportar como um pai.
- verdade. Mas ao menos poderei lhe dizer Jessica que lhe dei uma oportunidade e ele no quis aceit-la.
-E eu? -perguntou Cal ento-. Qual  meu papel em tudo isto?
Sara desejava no ver aquela dor em seus olhos. Quo ltimo desejava era lhe fazer mal.
- um homem muito bom, mas este casamento se converteu em algo muito confuso. Sei que quer nos proteger, mas no necessito que o faa.
-Segue apaixonada pelo Gary? -perguntou Cal ento.
- obvio que no, mas isto  algo que tenho que fazer pela Jessica. Tenta compreend-lo, por favor.
Ele sacudiu a cabea, incrdulo.
-No o entendo. No sei por que achas que um homem que nunca quis Jessie seria melhor pai que eu.
-Eu no disse isso.
-Olhe, se quer ir com ele, anularemos o casamento, mas no te escondas atrs de Jessie. Se Gary no a quis antes, no a querer agora.
Sara teve que agentar as lgrimas.
-No te ds conta de que o fao pela minha filha? Eu no tive pai nem me e quero que Jessica tenha tudo.
-J te disse que eu quero ser seu pai.
-Mas no o , Cal -suspirou ela-. S vamos estar juntos durante seis meses. Com o tempo, se esquecer de mim e da menina. Agradeo-te muito tudo o que faz por ns, mas no posso permitir que faa o que deveria fazer seu verdadeiro pai.
-Gary  seu pai biolgico, nada mais! -explorou Cal-. Jessie necessita de algum que a queira, que  cuide dela. Isso  o que eu te ofereo.
Suas palavras lhe rompiam o corao. Gostaria de acreditar nele, mas tinha medo. Uns meses depois, Cal a deixaria como o tinham feito todos os homens em sua vida.
-Quem dera que eu soubesse o que devo fazer. No quero cometer mais erros.
-Eu te estou dizendo o que deveria fazer, mas no quer me escutar -murmurou Cal-. E no quero que esse homem volte aqui a menos que se comprometa a cuidar de ti e de Jessie.
-No tem que cuidar de mim... -comeou a dizer ela.
-Eu acredito que sim. Digas o que disser, repito-lhe isso, eu quero adotar  menina. Cuidarei dela e lhe darei tudo o que necessitar.
Sara fechou os olhos.
-Meu pai enviava dinheiro todos os meses, mas isso no  suficiente. Eu necessitava de seu amor e voc mesmo admite que no acredita no amor. Como vais amar a Jessica? -perguntou Sara ento.
-O que  o amor, Sara?  algo que no se pode tocar, nem ver. Gary no te dizia que te amava antes de te pedir que abortasse? -perguntou ele a sua vez. Sara se deu a volta. No queria que Cal visse suas lgrimas-. Jessie me importa muito e nunca a abandonaria. Dou-te minha palavra de que sempre cuidarei dela. E faria o mesmo por ti... se me deixasse. Para mim, isso  melhor que o amor. Quando te decidir, diga-me e anularemos o casamento ou comearemos a preparar os papis de adoo.
Depois disso, Cal se dirigiu  clnica em grandes passadas.
-O que quero de ti no  que me proteja -murmurou ela.


Dois dias mais tarde, Sara abria a porta segurando Jessica com uma mo. De repente, a idia de estar a ss com Gary a assustava. Deveria haver dito a Cal que ele tinha ligado.
Gary a olhou de cima a baixo. Sara estava usando uma camiseta branca ajustada e ele no dissimulou sua admirao.
-Que camiseta to bonita. Fica muito bem.
- um presente -murmurou Sara, incmoda-. Quer entrar?
-Preferiria ir dar um passeio de carro.
Quando Cal apareceu nos degraus do alpendre, Sara suspirou aliviada. Sua presena lhe dava foras para enfrentar-se com o homem que podia destruir o futuro de sua filha.
Antes de que pudesse reagir, Cal a beijou nos lbios com fora e depois estreitou a mo de Gary como se fosse o mais normal do mundo, mas Sara sabia que estava furioso.
-Gary veio a conhecer Jessica.
Cal acariciou a cabecinha de Jessie, que estava preciosa com sua chupeta.
-Como est minha menina? -sorriu, beijando o cabelinho loiro do beb.
A Sara encolheu o corao. Esperava uma reao de seu pai, mas ele no parecia afetado absolutamente.
-Quase no tem cabelo -disse Gary ento, com expresso desdenhosa.
-Sim tem.  que  muito loira -corrigiu Cal. 
-Vamos nos sentar um momento. Temos coisas a discutir -disse Sara. 
Ainda que, na realidade, a reao de Gary estava clara. A menina no lhe importava nem um pouco.
-Muito bem.
-Quer pegar Jessica nos braos?
-Pois..,  que no me dou bem com os bebs. 
-Vamos, no vai quebrar-se -insistiu Sara.
-O terno  novo e no me quero manchar-lo - disse Gary.
-No, claro, no queremos que manche o traje -sorriu Cal, encantado com aquele imbecil. 
-Quer tomar algo, Gary? -perguntou Sara. 
-Uma taa de vinho.
-Ah, uma taa de vinho pela manh. Que so -disse Cal, que no pensava perder uma s oportunidade.
-No tem nada a fazer? -perguntou-lhe Sara em voz baixa.
-Um copo de gua, obrigado. 
-Certo.
Exasperada, Sara foi  cozinha. No gostava de deixar Gary sozinho com Cal. N sabia o que podia lhe dizer aquele teimoso veterinrio.
-Bom, Gary, me conte. Em que trabalhas? -perguntou Cal quando ficaram sozinhos, colocando  menina sobre seus joelhos.
-Agora mesmo estou tentando me decidir entre duas coisas.
-E quais so suas intenes quanto a Sara e a menina?
Gary ficou boquiaberto e tentou dissimular tirando um cigarro.
-Se quer fumar, ter que sair do alpendre -advertiu-lhe Cal. Quando Gary se levantou, Cal fez o mesmo estirando-se tudo o que pde. Passava quase duas cabeas daquele idiota-. Responde a minha pergunta. 
Gary tossiu, incmodo. 
-Pois eu...
-Sara  minha esposa -interrompeu-o Cal.
Gary se passou a mo pela gola da camisa.
-Olhe, a mim no vais assustar. Tenho amigos muito importantes.
-O que  que quer?
-Nada. Sara e eu somos... velhos amigos.
-Um amigo no a teria abandonado quando estava grvida. Por que retornaste?
-Queria ver se ela estava bem. Me importo com Sara.
-Se no estou mal informado, disse-lhe que abortasse e depois, se te vi no me lembro -disse Cal com tom ameaador-. Isso  o que faz com as pessoas que te importam?
-Os bebs complicam tudo e h formas de solucionar o problema.
-Solucionar o problema? -repetiu Cal, colocando Jessie em seu moiss antes de tomar Gary pelas lapelas-. Refere-te a abortar, no? Quero que olhe o que tentou destruir. Essa menina  a coisa mais doce que vi em minha vida e voc no a merece, como no merece Sara.
-Um momento...
-Sara  a nica razo pela qual no te tiro a pontaps daqui. Mas te advirto uma coisa, se fizer mal a ela ou a menina, irei te buscar. E te encontrarei por mais que te escondas.
Sara entrou nesse momento com uma bandeja na mo e Cal o soltou. Gary estava plido.
-No temos vinho, assim trouxe cerveja. Espero que no te importe.
-Na verdade...  que tenho um encontro e j chego tarde -disse Gary ento.
-Mas se nem sequer olhaste Jessica.
-Outro dia passarei por aqui. Acompanha-me ao carro?
-Sara, ter que trocar oafralda da menina. No se preocupe, eu acompanharei Gary at o carro -disse Cal.
Gary saiu da casa com toda pressa e Cal ficou vigiando-o no alpendre, com os braos cruzados. James apareceu nesse momento.
-Quem ?
-Um canalha. No entendo como Sara pde estar com ele.
-Sara no  a primeira mulher que se deixa enganar por um homem -sorriu James.
-Mas ela no  como as demais mulheres.
-No estar apaixonado pela Sara?
Aquela pergunta o pegou de surpresa.
-Isso  ridculo. Voc sabe que no me casei com ela por isso.
-Sim.
Cal no queria seguir falando do assunto, mas ia ter que pensar nisso seriamente.




Captulo 10

Mais tarde naquela noite Cal encontrou Sara no balano do alpendre, sua silhueta recortada pela luz da lua. Seu pulso se acelerou ao v-la e recordou o que James havia dito. Estaria apaixonado por ela?
-Jessie est dormindo e Hattie vai ficar a dormir aqui. Vamos dar um passeio. Tenho que comprovar se as grades no se partiram com o peso da neve.
Sara tomou a mo que lhe oferecia e subiu  caminhonete.
Durante uns minutos foram em silncio, olhando a paisagem gelada. O perfume de Sara enchia o carro e seus sentidos, como na noite que a tinha tido em seus braos. Recordaria-o ela tambm?
-Quantos acres de terreno tem o rancho?
A pergunta de Sara o tirou de seu ensimesmamento.
-Uns mil.
-Isso  muito. No  difcil mant-lo?
-No. A maior parte so pastos e se cuidam sozinhos -sorriu Cal-. Algum dia, eu gostaria de ampliar a clnica e o curral.
-Por que te formastes em veterinrio? No tem nada que ver com o que faz sua famlia.
-Meu av tinha um rancho onde criava os melhores cavalos do Texas. Mas quando morreu, meu pai decidiu vend-lo.
-Por que?
-Dizia que o trabalho era muito duro e culpava ao rancho pela morte de seu pai -respondeu ele-. Mas isto  a vida para mim.
-Apaixona-te, verdade?
Cal se voltou para olh-la e teve que tragar saliva. Sara no se dava conta de quo preciosa estava  luz da lua.
-Quem me dera que eu tivesse conhecido a meu av. Lhe encantavam a terra e os animais. Era como eu.
-O rancho de seu av segue sendo de sua famlia?
Cal parou a caminhonete e apagou o motor. No gostava de falar daquilo porque tinha sido a primeira grande traio de seus pais.
-No. Meu pai decidiu vendar tudo e nos levar a Dallas. Minha av no queria partir, mas meu pai pode ser muito persuasivo. Ele queria poluio, trfego, arranha-cu... E pensou que outros tambm queriam isso.
-Sinto muito -murmurou Sara.
Cal no podia recordar um s momento de sua vida no qual tivesse sido feliz depois da morte de seu av. At que conheceu Sara.
-Era horroroso viver em Dallas -murmurou, recordando aqueles anos de solido-. Deram-lhe muito dinheiro pelo rancho e com isso meu pai levantou seu negcio. Minha av morreu seis meses depois. Sem meu av e sem o rancho, no tinha razes para viver.
-Seu pai parece muito empenhado em que trabalhe com ele.
-No o farei. Nunca.
-Me alegro -disse Sara-. s um veterinrio estupendo e merece ser feliz.
Seu calidez fazia que o corao de Cal se acelerasse. Ali sozinhos, s escuras, tendo-a to perto, precisava toc-la, queimava-se por faz-lo.
Cal tentou pensar em outra coisa, mas se sentia miservel pela tristeza de seus olhos verdes. Sabia que no devia faz-lo, mas se inclinou para ela.
Uns segundos antes de que a beijasse, Sara fechou os olhos. Seus lbios se roaram e Cal acreditou que o corao lhe ia sair do peito. Mas quando o beijo se fez mais apaixonado, o inferno que havia dentro dele o impedia de pensar, respirar, fazer nada exceto seguir beijando-a.
Quando, deixando-se levar no momento, deslizou as mos por suas costas, ela no se apartou, justamente o contrrio. Colava-se a seu peito como se desejasse perder-se nele. Cal escutou um gemido, mas no sabia se tinha sado de sua garganta. Sara abriu os lbios e ele a buscou com sua lngua, desesperado.
Sara enredou os braos ao redor de seu pescoo e Cal se deu conta ento de que no podia controlar seu desejo. Seu corpo se negava a obedecer as ordens de seu crebro. Louco, comeou a acariciar seus seios, mas ela se apartou como se a tivesse queimado.
Os olhos de Sara se obscureceram, devorando-o, mas lhe ps uma mo no peito e se apartou.
-No, Cal.
-Tens razo, mas te desejo com toda minha alma -murmurou Cal. Estava tremendo e teve que fechar os olhos um momento para controlar-se-. E acredito que voc sente o mesmo.
Sara se apartou o cabelo do rosto, nervosa.
-No posso neg-lo, mas assim  como nasceu Jessica.  um preo muito alto.
Tentando ignorar o desejo que ameaava consumir-lo, Cal arrancou a caminhonete.
Sabia que teria encontrado o cu entre os braos de Sara, mas no podia jogar com seus sentimentos. E no estava seguro de querer comprometer-se.
Ela era sua mulher e Cal a desejava com todas suas foras. Possivelmente se a tratasse bem, se compartilhavam uma parte do cu, decidiria ficar, embora ele no pudesse lhe dar o amor que ela merecia.


-Como que posso dormir contigo? -perguntou Sara quando ele fechou a porta de seu dormitrio. 
-Hattie est dormindo em sua cama -disse Cal em voz baixa-. No querer despert-la? 
-Mas...
Cal a levou a seu dormitrio.
-J dormistes antes comigo. 
-Sei, mas...
-Sara, quero que durma comigo.  minha esposa.
-O que?
-J me ouviste -murmurou Cal, abraando-a. Ela no se apartou quando comeou a beij-la no pescoo.
-Mas...
Sara estava perdendo a cabea. O ter to perto fazia que no pudesse pensar.
Cal a deitou sobre a cama.
-Fica comigo -murmurou, deitando-se a seu lado-. Desejo-te.
Sara tentou concentrar-se, esquecer as mos do homem, seu aroma masculino. Tinha que partir dali. Mas quando Cal comeou a beij-la, com fora, exigente, no pde pensar mais e enredou os braos ao redor de seu pescoo. Beijava-a no pescoo, no rosto, no cabelo... e o peso do homem sobre seu corpo a deixava louca.
-Se quiser que eu pare diga isso agora ou...
Sara no podia lhe negar nada naquele momento, no podia pensar. Logo teria que partir e, ao menos, levaria aquela lembrana com ela. Seria o mais parecido ao amor que teria tido em sua vida.
-No quero que pares.
Cal lanou um gemido rouco e voltou a beij-la, mas se apartou uns segundos depois.
-Passou pouco tempo desde o parto. No quero te machucar.
-Eu te direi se quiser que pares.
-Possivelmente no deveramos... -murmurou ele, deixando cair a cabea sobre seu ombro-. No poderia suportar se te machucasse.
-Me beije, Cal. Por favor.
E ele o fez. Seus beijos a deixavam louca de desejo. Cal lhe tirou a roupa com mos trementes enquanto ela fazia o mesmo. Quando sua camisa esteve no cho, Sara deslizou os dedos pelo peito largo e musculoso que tinha desejado tocar tantas vezes.
-No posso suport-lo, Sara. Tenho que te possuir. Agora.
Depois de tomar as precaues necessrias, Sara decidiu viver o momento sem pensar. As carcias ternas do homem faziam que se apaixonasse por ele cada vez mais e quando se converteram em um s, seus olhos estavam cheios de lgrimas.
No pelo que estavam fazendo, mas sim pelo amor que Cal no poderia lhe dar nunca.
Sara no se atrevia a pensar quo difcil ia ser partir quando chegasse o momento.
Os homens sempre lhe tinham feito mal. Mas Cal, seu marido, que a apertava com fora contra o colcho, tinha-a levado ao cu.
Ele a abraou com fora durante um momento e depois se deitou a seu lado.
-Ests bem? Te machuquei?
Sara apoiou a cabea sobre seu peito.
-No. Estou bem -respondeu. Mas no era certo.
Cal lhe tinha feito mal, mas a dor estava em seu corao, onde no podia ver-se.
De todas as dores que tinha sofrido em sua vida, aquela era a pior. De menina tinha suportado a solido e de jovem, o rechao de Gary. E tinha sobrevivido.
Mas Sara temia que a dor que Cal lhe estava causando a destruria. Porque, apesar de sua incapacidade de amar, Cal lhe tinha mostrado quo maravilhoso poderia ter sido.


-O que te passou? -perguntou Sara, olhando a ferida que Gary tinha na testa.
-Uma diferena de opinio. Ests sozinha?
-Sim, bom estou com a menina. Hattie tem o dia livre. Por que?
-No tenho dinheiro, Sara. Pode me emprestar algo?
-No -respondeu ela. 
-Necessito de mil dlares. 
-Para que?
-Tinham-me dado o nome de um ganhador certo nas corridas e o apostei tudo -respondeu ele. 
Sara suspirou, enojada. Como no tinha visto antes o que era aquele homem?
-Vejo que segue te colocando nessas confuses. 
-Necessitava de dinheiro, gatinha. 
-Pois eu no o tenho.
-Por favor, Sara. Tenho um negcio me esperando na Europa.
Gary sorriu, com um daqueles sorrisos que estava acostumado a derret-la. Mas naquele momento no exercia nenhum efeito nela. Justamente o contrrio.
-No.
-Sara, eu gostaria que viesse comigo, mas agora no  o momento. Quando voltar, chamarei-te e tudo voltar a ser como antes -insistiu Gary, tomando sua mo.
Ela a apartou, como se um inseto repulsivo a tivesse tocado.
-Esperava que tivesse mudado.  que ainda no te deste conta de que  impossvel ganhar dinheiro sem esforar-se? No sabe que essas coisas s acontecem nos filmes?
-Por isso voc e eu somos uma equipe to boa, Sara. Voc  a sria, a calculadora e eu, o sonhador -tentou engan-la Gary de novo-. Por favor, Sara. Necessito desse dinheiro.
-No.
- pelos dois, querida. Pela Jessica. Quando voltar da Europa seremos uma famlia.
Sara negou com a cabea.
-Estou casada com Cal.
-Mas eu sigo te querendo, querida.
-Como me queria quando me deixou, no? Ou quando me disse que abortasse. Ento tambm me queria, verdade?
Gary se encolheu de ombros.
-Tinha que pensar no que era melhor para mim... para os dois. Mas as coisas mudaram. O veterinrio est encantado com a pirralha. Deixa-a com ele. Vamos voc e eu sozinhos, como antes.
Como podia ter estado com aquele homem?, perguntava-se Sara, incrdula.
Tinha-lhe dado uma oportunidade de ser o pai de sua filha, uma oportunidade que nunca tinha merecido e, como esperava, Gary no tinha nenhum interesse.
-Quando fostes embora, pensei que no foi melhor que meu pai -disse Sara, tentando conter sua fria-. Mas me equivoquei.  muito pior que ele. No vou te dar dinheiro, assim pode ir agora mesmo -acrescentou, abrindo a porta-. Fora daqui!
-No pode te ver livre de mim to facilmente. Direi a todo mundo que sou o pai da pirralha. O que acha que diro os pais do veterinrio quando o souberem?
-No vou te dar dinheiro, Gary.
-Muito bem. Mas ser melhor que vigie  menina.
-O que quer dizer? -perguntou ela, assustada.
-Ouvi que compram crianas no mercado negro.
O corao de Sara parou um segundo. No podia ser, no podia estar ameaando-a roubar a sua filha.
-Enquanto eu viva, no voltar a te aproximar dela. Atestarei nos tribunais sobre suas apostas e suas ameaas, mas nunca te aproximar de Jessica.
-No podes provar nada.
Cal entrou na casa como uma enxurrada ao ouvir a ltima frase e Gary deu um passo atrs, assustado.
-Filho de... -comeou a dizer, agarrando-o pelas lapelas.
-No! -exclamou Sara-. Isto  meu problema. Eu o solucionarei, Cal.
-Este tipo s entende a violncia.
-D-me um murro e o denunciarei -disse Gary. 
-E eu pagarei a multa com gosto. 
-Por favor, Cal.
Quo ltimo desejava era soltar a aquele canalha, mas quando olhou a Sara viu que ela estava realmente assustada.
-Deixa que faa isto por ti.
-No. Sou eu quem deve solucionar este problema.
Cal teve que soltar a aquele verme.
-Quanto vale a menina para voc, doutor Tucker? -perguntou Gary, esticando a jaqueta.
- um doente, Gary -disse Sara-. Se voltar a te aproximar de minha filha, farei que lhe detenham. V daqui agora mesmo.
-Voc o que diz, doutor?
-Isto no  assunto dele -replicou Sara-. Jessica  minha filha.
Para Cal aquilo foi como uma bofetada, mas tentou dissimular.
-Minha Sara sempre teve muito carter -sorriu Gary, irnico.
-No quero voltar a ver-te em minha vida. V embora daqui.
-Isto no terminou -ameaou-a ele da porta.
-Terminou faz muito tempo. S voltei a ver-te pela Jessica -suspirou ela antes de sair da cozinha, enojada.
Cal esperou uns segundos at que ouviu ela fechar a porta do dormitrio e depois tirou uns papis da gaveta.
-Darei-te dez mil dlares. Com uma condio.
-Qual? -perguntou Gary, com os olhos brilhantes de cobia.
-Que no volte a falar com Sara.
-Muito bem.
-E o mesmo vale para Jessie.
-Quem?
-Sua filha -respondeu Cal, tentando manter o controle.
-Feito. Que mais?
-Tens que assinar os papis recusando o ptrio poder. Ter que assin-los ante um tabelio. S ento conseguir o dinheiro.
-Acaba de comprar uma menina -sorriu o canalha do Gary, despedindo-se com um gesto.
Acontecesse o que acontecesse, os sentimentos de Cal por Sara e Jessie no mudariam. Queria passar o resto de sua vida cuidando delas e faria o que fosse para consegui-lo.


Sara estava desfeita em lgrimas quando fechou a porta de seu dormitrio. Angustiada, aproximou-se do bero de sua filha e acariciou seu cabecinha.
No podia acreditar o que Gary tinha sugerido.
Uns segundos depois, quando Cal entrou na habitao com os braos abertos, jogou-se neles sem duvidar.
-Me abrace, por favor.
-Estou aqui, no passa nada.
Sara comeou a soluar e Cal a consolou, murmurando palavras carinhosas enquanto beijava seu cabelo.
-Gary me mentiu sempre, mas ns no somos melhores que ele. Mentimos a seus pais e a todo mundo.
-No  o mesmo.
-Sim , Cal. Estamos mentindo para conseguir o que queremos.
Sara levantou os olhos para olhar ao homem que a protegia, que cuidava dela, que a fazia necessit-lo, que a fazia am-lo...
Aquele vaqueiro que no acreditava no amor lhe tinha roubado o corao. Tinha que reconhecer-lo de uma vez por todas.
-O que te passa, querida?
-No posso ficar.
-No vou deixar que te parta. Necessito-te.
O corao de Sara deu um tombo.
-O que?
-Desejo-te -murmurou Cal, roando seus lbios. O calor do homem a retinha a seu lado e, incapaz de seguir negando-se a si mesma o que sentia, Sara se abriu para ele como uma flor e se entregou a aquela carcia que era ao mesmo tempo o cu e o inferno.
Por um instante, perguntou-se se deveria esquecer seus loucos sonhos de amar e ser amada. Sabia que Cal cuidaria dela. Ele poderia lhe dar tudo o que necessitava, exceto o mais importante, o amor.
Sara fechou os olhos enquanto a acariciava. Era uma tortura desej-lo e saber que no o teria nunca.
Cal a beijava enquanto desabotoava sua blusa com dedos trementes e, sem pensar, Sara puxou sua camisa para tir-la da cala. Precisava sentir sua pele. Nunca antes tinha necessitado algo com tanta intensidade.
Cal inclinou a cabea para beijar seus seios e ela enredou os dedos em seu precioso cabelo escuro.
Nesse momento, soou o telefone e Cal afogou uma maldio.
-Fale? Ol, me -disse, com os dentes apertados-. Fora do pas? Onde desta vez?
Sara entrou no banheiro para lavar a cara. Tremiam-lhe tanto as mos que quase no podia faz-lo. No tinha aprendido nada? Fazer amor com Cal outra vez seria um erro. Sara queria uma relao duradoura, amor, compromisso. Precisava acreditar que Cal queria algo mais que uns amassos. Queria arriscar-se com ele, mas no podia permitir que lhe rompesse o corao porque o tinham quebrado muitas vezes.
Tinha que partir. Cal no a amava e nunca o faria. Ficar mais tempo seria um suicdio emocional.
Quando voltou para dormitrio, viu que Cal estava frente  janela, com a testa apoiada no vidro.
-No, me, no vou trocar de opinio.
Sara tirou sua mala do armrio, tentando controlar as lgrimas.
-Meus pais partem de novo a Paris -disse Cal depois de desligar-. Sei que queria convert-los em avs, mas no lhes interessam nada as mamadeiras e as fraldas.
-Sinto muito -murmurou Sara-. S queria que soubessem que s um homem estupendo. Sei que sua aprovao significa muito para ti.
-Eu j aceitei que no vo mudar nunca... -comeou a dizer ele. Ento se fixou na mala-. O que ests fazendo?
Sara respirou profundamente.
-Vou embora.
A buzina de um carro soou nesse momento.
-No vai a nenhuma parte. Temos que falar.




Captulo 11

Cal desceu os degraus do alpendre e tomou o mao de papis que Gary lhe oferecia atravs da janela. Deu-se muita pressa em procurar um tavelio. Depois de comprovar que tudo estava assinado, tirou um talo de cheque do bolso e assinou um cheque, mas quando Gary estendeu a mo, Cal o apartou.
-No quero voltar a ver-te por aqui. Nunca.
-Eu j tenho o que queria -disse Gary, tomando o cheque-. Mulheres como Sara tem aos montes.
Cal colocou as mos pela janela e segurou Gary pelas lapelas.
-Equivoca-te. Ela  nica. E  minha -disse, com os dentes apertados. A realidade de seus sentimentos o golpeou ento com a fora de um tornado-. V daqui antes de que te parta a cara.
Cal esperou at que viu desaparecer o carro e depois entrou na casa. Tinha que convencer-la de que ficasse.
No lamentava o que tinha feito. Sara e Jessie estavam melhor longe daquele canalha.
Cal se deteve frente ao dormitrio. Queria apagar a dor que Sara tinha sofrido de menina, queria queficasse, desejava-o desesperadamente mas no queria perguntar-se por que.
Porque naquele momento tinha outro problema. Livrando-se de Gary tinha destrudo a nica coisa que retinha Sara.


Sara desligou o telefone de repente.
-Cal, eu no gosto de sua forma de atuar! Achas que no te vi dando um cheque a Gary? -exclamou, tirando uns jeans do armrio.
-Vamos, Sara. Esperava que o deixasse te ameaar sem fazer nada?
-Isso era o que queria que fizesse. Caso de que no te tenhas dado conta, eu tinha tudo controlado.
-Isso no  verdade.
-Quero tomar minhas prprias decises. Voc est fazendo todo o possvel para que dependa de ti, mas no penso voltar a depender de um homem em minha vida.
Cal se passou a mo pelo cabelo.
-S queria te ajudar...
-Eu no te pedi ajuda.  igual a seus pais. Eles lhe dizem o que deve fazer e voc me diz o que devo fazer -exclamou ela-. Cal, no sou uma incompetente. Posso cuidar de mim mesma e posso cuidar de Jessica.
-Nunca disse que no pudesse faz-lo.
-Mas interfere em minha vida todo o tempo e nem sequer te d conta de que o faz.
Cal a olhou, incrdulo.
-Ests exagerando. S queria que Gary no voltasse por aqui.
Sara teve vontade de gritar.
-Eu poderia me ter encarregado disso -disse, com os punhos apertados-. No necessito que brigue por mim. No tinha direito a interferir, no tinha direito a lhe dar dinheiro.
- minha mulher e  lgico que queira cuidar de ti.
-No sou realmente sua mulher, Cal. Os dois sabemos.
-Fiz-o por ti, Sara -disse Cal com expresso ferida-. Por ti e pela Jessie. No queria que Gary te fizesse mal.
O que podia dizer para faz-lo entender?
-No te ds conta de que voc me tem feito mal? Deste dinheiro a Gary e isso est mal.
-O dinheiro no  importante.
-Sim .  seu dinheiro.
-Sinto muito, Sara -murmurou Cal, pondo uma mo sobre seu ombro-. Sempre usei meu dinheiro para ajudar aos outros. No lhe dou nenhuma importncia.
-Essas pessoas te utilizaram, Cal. E eu no quero te utilizar.
-Sei que me passei com Gary, mas esse tipo  um canalha. Virtualmente, vendeu Jessie. No te culpo por estar zangada comigo, mas se tivesse que voltar a faz-lo, faria-o. E, agora, me explique por que quer partir.
A dor que via em seus olhos quase fez que Sara mudasse de opinio. Mas tinha que ser forte. 
-Tenho que ir. Gary no voltar a me incomodar e temo que seus pais nunca aceitaro nosso matrimnio. No h nenhuma razo para seguir com esta mentira.
Cal no queria que Sara se fosse. Quem cuidaria dela?
-Onde vais?
-Possivelmente a Waco, a procurar a meu pai. 
-No quero que volte a te fazer mal. 
-Quero que meu pai conhea sua neta.
Cal apartou um cacho de sua testa, desejando tom-la entre seus braos.
-Acreditas que vai lhe dar a Jessie o amor que no deu a ti?
Sara fez um gesto de dor e fechou os olhos para esconder as lgrimas.
-Tenho que tent-lo. 
-No tem que ir, Sara.
-No h razo para ficar. 
-E nosso casamento?
-No temos por que seguir mentindo.
Cal queria dizer muitas coisas para apagar a dor que via em seus olhos, mas no encontrava as palavras.
-No acredito que seja boa idia levar Jessie de viagem.  muito pequena.
-Pode viajar, no se preocupe -disse Sara. 
-E se no encontrar a seu pai? 
-Procurarei um trabalho.
Cal queria segurar-la, ret-la a seu lado, mas sabia que no tinha direito a lhe exigir que aceitasse menos do que merecia. Ele no sabia como amar a uma mulher como Sara.
Havia tantas coisas que gostaria de dizer. Tinha as palavras na ponta da lngua, mas lhe fez um n na garganta quando a viu tomar sua mala.
-No v.
-Quer que fique porque seus pais no me suportam.
-Isso  ridculo. 
-Quem dera que eu pudesse acreditar em ti. 
-Claro que pode.
-Mentiste a seus pais. 
-E eles me mentiram . 
Uma buzina soou nesse momento.
Cal lanou uma maldio enquanto se aproximava da janela.
- James. vou ver o que quer. Quando voltar, terminaremos esta conversa.
Sara tomou a mala.
-Veio para me buscar. Pedi-lhe que me leve at estao de nibus.
-O que?
-Quando vi que dava esse cheque a Gary, soube que no podia ficar nem um dia mais. Sei que no deveria ter chamado a seu amigo, mas  a nica pessoa que conheo.
Durante uns segundos se olharam um ao outro, esperando que algum deles desse o primeiro passo.
-Sara, no posso te deixar ir.
-Se ficar uma semana mais, no mudar nada.
Cal teve que meter as mos nos bolsos da cala para no toc-la.
-No quero que v assim.
-Esse  o problema, Cal. Sempre ests me dizendo o que tenho que fazer, como se eu tivesse a mentalidade de uma pedra.
-O que quer de mim, Sara? 
A buzina voltou a soar.
-No quero nada. Tenho que ir  -disse ela, tomando  menina nos braos.
Cal sentiu que o mundo se afundava a seus ps. 
-E o que vais fazer? Tens um pouco de dinheiro? 
-Economizei o que me pagavas na clnica. 
Cal tirou as mos dos bolsos quando ela abriu a porta.
-Sara, espera, por favor. 
-Sim?
O que podia dizer, como podia convencer-la de que ficasse?
-Nunca conheci a ningum como voc. No v.
Sara o olhou, com os olhos cheios de esperana. 
-Por que?
A buzina soou de novo. O maldito James com o maldito carro que ia levar-la  estao de nibus.
-Porque s especial.
-Essa no  razo para ficar. 
Cal se passou a mo pelo rosto. 
-O que quer de mim?
-Nada mais que o que voc queira me dar -disse Sara, passando a seu lado.
O que tinha querido dizer com isso? Cal a seguiu pela escada.
-Maldita seja, Sara, importa-me. Importa-me mais do que me importou alguma mulher. 
-Importo-te tanto como seus pais? -perguntou ela, parando um momento.
-Isso no tem graa.
Cal sabia que Sara merecia ser amada e ele queria am-la, mas no sabia como faz-lo.
-Cal, voc quer que seus pais lhe amem, mas tem que dar algo em troca.
-No estamos falando de meus pais. 
-Me explique a diferena. 
-Voc no sabe o que sinto por ti. 
A porta se abriu nesse momento.
-Sara? Fizeram as pazes? -escutaram a voz de James.
-Em seguida deso -disse ela. Depois, voltou-se para Cal-. No, no sei o que sentes por mim e esse  o problema. Quo nico sei  que voc no acredita no amor. No sei se  porque tens medo de que lhe faam mal, mas nunca o encontrar se no te arriscar. Pode que lhe faam mal outra vez, mas tambm  possvel que no. E se no o tentar, nunca saber.
-Sara...
-Tenho que ir. James est esperando.
Cal tinha o corao em um punho enquanto a seguia at a porta. 
-Sara?
-O que?
-No v. Necessito-te. 
Ela entrou na caminhonete.
-Sinto muito. No pode funcionar. 
-Fique. Deixa que te prove que...
-No! Disse a mim mesma que no me apaixonaria por ti, mas me equivoquei. No posso ficar  -interrompeu-o ela, tentando esconder as lgrimas.
-Por que?
-Porque no  suficiente que me necessite.
Cal estava perplexo. Sempre se tinha perguntado como seria quando algum o amasse de verdade. E acabava de saber. Nunca tinha sido mais feliz nem mais desgraado em toda sua vida.
-Sara, se falar com meus pais sobre meus sentimentos, ficar?
Ela negou com a cabea.
-Deveria faz-lo, mas no por mim.
-Vo se decidir ou no? -perguntou James ento-. Est muito claro o que sentem um pelo outro.
Cal olhou a seu amigo.
-Importa-te de se colocar em seus prprios assuntos?
-N importa -disse Sara, fechando a porta-. Vamos, James.
James olhou de um a outro e depois tirou as chaves do contato.
-No. No posso permitir que v, Sara. Por favor, desa do carro e fala com ele. O deve.
-Me d cinco minutos, Sara. Se at ento no te convencer, pode ir  -insistiu Cal, esperanado.
Os olhos de Sara se encheram de lgrimas.
-Por que? O que vais dizer-me?
-No sei.
-Por favor, James, me leve at a estao -rogou-lhe Sara, secando as lgrimas com a mo.
James olhou a seu amigo, como lhe rogando que dissesse as palavras que a reteriam a seu lado, mas ele permaneceu em silncio.
-Espero que saibas o que ests perdendo -disse, entre dentes.
A caminhonete arrancou deixando Cal para trs.
No era isso o que tinha querido? Estar sozinho outra vez?
Esperava que Sara se voltasse para lhe dizer adeus, mas no o fez. O cho estava coberto de gelo e James conduzia muito devagar. De repente, Cal viu que se acendiam as luzes de freio e seu corao deu um tombo. Sara tinha mudado de opinio.
Sem pensar, comeou a correr, com Sheep a seu lado. Precisava abra-la, no podia deixar que se fosse.
E ento o entendeu. Estava apaixonado por Sara, a tinha amado desde o comeo, embora no tinha querido admiti-lo porque aquele era um sentimento desconhecido para ele.
Mas a caminhonete comeou a andar ento. James s tinha freado para evitar um tronco.
-Espera! Sara!
James pisou no freio e Sara baixou a janela quando viu Cal correndo para eles.
Sem flego, ele parou a seu lado e tirou uns papis do bolso.
-Aqui esto os papis que Gary assinou recusando o ptrio poder de Jessie -explicou. Depois, assinalou outros papis-. Sabe o que so?
-Os papis do divrcio -disse Sara.
Cal os rasgou em pedaos.
-Sei que sou teimoso e difcil de trato s vezes. Sei que tento te dizer o que deve fazer, mas no posso te deixar ir. Quero que fique, que seja minha mulher, que durma comigo e que, possivelmente um dia, me ame tanto como eu amo a ti.
Os olhos de Sara voltaram a se encher de lgrimas e teve que cobrir a boca com a mo. 
-Disse que me ama? 
-Sim. Amo-te, Sara.
Ela tirou o cinto de segurana e saltou da caminhonete.
Cal a tomou em seus braos e a beijou com toda sua alma enquanto Sheep dava voltas a seu redor, ladrando de contente.
-Diga-me isso outra vez.
Ele tomou seu rosto entre as mos.
-Fui um idiota, mas o que pode esperar de um homem apaixonado? -sorriu, acariciando seu cabelo-. Estraguei tudo, mas quero pedir-te outra oportunidade.  muito tarde? 
-Oh, Cal, tenho tanto medo. 
-De mim?
-No, pelo que sinto por ti. Tenho medo de no faz-lo bem -disse Sara, secando as lgrimas.
-Eu tambm -confessou ele-. Mas se estivermos juntos, tudo ser maravilhoso, estou seguro.
Depois, incapaz de conter-se, voltou a tom-la em seus braos e a beijou tentando lhe dizer assim tudo o que no sabia dizer com palavras.
James espiou pela janela.
-Uma garota est me esperando. Querem vir conosco para tomar algo?
-No. Quero estar sozinho com minhas duas garotas esta noite -respondeu Cal, abrindo a porta traseira para tirar a cadeirinha de Jessie-. Obrigado, James.
-Menos mal que Sara me chamou . No teria conseguido se tivesse vindo um txi. Amanh eu me encarrego da clnica?
-Boa idia -sorriu Cal-. Vou tomar uma semana livre. Vamos de lua-de-mel. Os trs.
-No se preocupe com nada -disse James, desaparecendo pela estrada sem deixar de tocar a buzina.
-Est seguro do que sentes, Cal? -perguntou Sara-. E se dentro de seis meses te ds conta de que cometeste um erro?
Cal a apertou contra si enquanto caminhavam para a casa.
-Ter que confiar em mim. Pode faz-lo, Sara? Pode confiar que eu no vou fazer te mal? -perguntou. Ela o olhou nos olhos e Cal pde ver o medo que havia neles-. Sei que  difcil para ti. Tambm  difcil para mim. Nenhum dos dois tem um passado que lhe assegure que isto vai funcionar. Sei que viver juntos no vai ser fcil, mas nada pode ser to difcil como ver que te afastavas de mim.
Sara parou no alpendre.
-Resulta-me difcil confiar em algum, Cal. Quando te conheci, no tinha nada, mas voc me deu um mundo. Ensinaste-me que vale a pena arriscar-se. Voc tem feito que sejamos uma famlia, Jessica, voc e eu. E te amo mais do que te posso dizer.
Suas palavras eram como uma brisa suave que esquentava o corao de Cal. O amor que sentia por Sara, sua mulher, era o mais formoso que havia sentido alguma vez.
-Vamos colocar Jessie no bero. Preciso te mostrar quanto te amo. E tenho o pressentimento de que vou necessitar de toda a noite.



Eplogo

Cal e Sara estavam no salo de festas da igreja metodista. Hattie estava partindo o bolo enquanto os pais de Cal aceitavam outra rodada de felicitaes pelo batismo de sua neta e William no pde dissimular seu orgulho quando algum mencionou que a menina se parecia com ele.
-Me d a minha menina. Cada dia pesa mais -sorriu Cal, tomando Jessie, preciosa com aquele lao branco no cabelo.
-No achas que um cavalo  um presente estranho para uma menina? -sorriu Sara-. Quando disse que ias lhe dar de presente um cavalo, pensei que referia a um de madeira.
Cal a olhou, aparentando indignao.
-Minha filha no vai montar em um cavalo de madeira quando pode faz-lo em um de verdade.
-Cal,  uma menina de seis meses.
-Eu montarei com ela at que possa pr os ps nos estribos.
Sara no pde evitar um sorriso.
-E seus pais so piores que voc. Jessica  a nica menina de seis meses que tem uma bolsa de aes.
-Sim,  verdade. Temo que nossa filha vai necessitar de um cofre muito grande.
Sara acariciou o vestidinho de Jessica.
-Cal, no quero que cresa pensando que o dinheiro  o mais importante.
-No o far, prometo-lhe isso -sorriu seu marido. 
-Ah, por certo, seus pais nos convidaram para jantar no sbado. No sei que ministro vai vir comprar um cavalo e sua me diz que necessita de seus conselhos.
Cal olhou a seus pais, sem poder dissimular a alegria.
-Srio?
-Espero que te d conta de que esto tentando de verdade.
-Sei. Vi-os mais durante os ltimos meses que em toda minha vida. Quando sugeriu que falasse com eles no acreditei que servisse de algo, mas estava equivocado.
-O mrito  teu.
-Sem ti, nunca teria feito esse esforo, Sara. Meus pais nunca sero uns avs tradicionais dos que fazem tric para seus netos, mas Jessie ter viagens a Paris e jantares com ministros -sorriu Cal, beijando a carinha de sua filha-. Aprender muitas coisas.
James apareceu por detrs deles ento, reclamando  menina. Sara teve que sorrir. Sabia que s era uma artimanha para chamar a ateno das mulheres, embora James no necessitasse de artimanhas para romper coraes.
Cal a levou a um canto do salo e lhe deu uma caixinha de veludo.
-O que  isto?
-Tentei recuperar suas coisas... o que esse idiota do senhor Davis vendeu.
Os olhos de Sara se encheram de lgrimas. 
-Cal, no tinha que faz-lo.
-Sim tinha que faz-lo. Quem me dera que tivesse tido mais sorte. Temo que isto  o nico que encontrei.
Sara se jogou nos braos de seu marido.
-J no importa. Voc  tudo o que necessito. Voc e Jessica so meu futuro.
Cal assinalou a caixinha.
-Abre-a -disse, sorrindo. Sara a abriu com mos trementes. Assim que reconheceu o broche de sua av com a fotografia de sua me ps-se a chorar-. Agora entendo o que seu pai queria dizer. 
-O que? -exclamou Sara, incrdula.
-Voc conseguiu que eu recuperasse a meus pais e  justo que eu faa o mesmo por ti. 
-No, Cal, no  o mesmo. Ele me deixou quando tinha nove anos e nunca voltou a preocupar-se por mim.
Cal secou suas lgrimas com um dedo. 
-Tem que entender. Deixou-te porque... 
-Porque no me amava -terminou Sara a frase, com toda a dor de seu corao.
Cal levantou seu queixo com um dedo, olhando-a aos olhos.
-No, querida. Voc me contou que ele bebia, que nunca tinha trabalho e a razo era que...
-Eu amava a sua me mais que a minha prpria vida.
Sara se voltou e, de repente, encontrou-se com algum que se parecia com o homem que tinha sido seu pai. Estava vestido como um jeans e tinha o cabelo cinza.
Os olhos do homem estavam cheios de lgrimas quando levantou uma mo para acariciar seu cabelo.
-Inclusive de menina era a viva imagem de sua me -disse Hank Jamison-. Cada vez que te olhava, recordava o que tinha perdido. Sinto muito Sara Ann, mas perder a sua me quase me custou a vida. Por isso bebia, por isso tive que partir  -acrescentou seu pai com voz rouca. Sara estava tremendo e Cal a tomou pela cintura para lhe dar foras. Hank Jamison ficou olhando a sua filha, esperando que dissesse algo, mas Sara no podia falar-. No queria te fazer mal, Sara Ann. Seu marido me contou quanto te feriu minha ausncia e quero te pedir perdo. No espero que o entendas, mas eu estava muito perdido em minha prpria dor para pensar em outra coisa. E quando consegui voltar a ter uma vida normal, era muito tarde.
-Mas nunca voltou. Nunca me chamou -disse Sara, quase sem voz.
-Chamei-te muitas vezes, mas sua av me dizia que no queria falar comigo. Quando ela morreu fui te buscar, mas j no estavas l.
Sara respirou profundamente para dar-se coragem.
-A vov nunca pde superar a perda de mame. E eu quo nico queria -comeou a dizer Sara, tentando controlar o tremor em sua voz - que meu pai voltasse para casa.
Hank Jamison fechou os olhos e respirou profundamente.
-Sinto muito, Sara Ann. Eu no sabia... Deve me odiar.
-Acreditei que te odiava, mas no  assim.
- pedir muito que me d um abrao? 
Sara no pde conter o sorriso que tinha nascido em seu corao. Apartando-se de Cal, livrou-se de toda a dor e a pena que tinha sofrido de menina e se jogou nos braos de seu pai. Os dois estavam chorando.
-Acreditei que te tinha perdido para sempre. Poder me perdoar?
Sara lhe deu um beijo na bochecha. 
-Amo-te, papai.
-Eu tambm te amo, Sara Ann -murmurou ele. Quando pde recuperar a compostura, estreitou a mo de Cal-. Obrigado por dar a este velho uma segunda oportunidade.
-O fiz pela Sara. Tinha direito de saber o que aconteceu.
Sara apresentou a seu pai a todo mundo e depois ps Jessica em seus braos.
-Esta menina  minha neta? 
-Sim, papai.
Sara e Cal se afastaram um pouco dos convidados para desfrutar daquela recm obtida felicidade. 
-J te disse que o advogado j recebeu os papis da adoo? -sorriu Cal. Sara negou com a cabea. 
-O que ter que fazer agora? 
Ele se encolheu de ombros.
-J est. Sou o pai legal da menina. Quo nico que resta  que voc lhe diga para trocar o nome de Jessica pelo Jessie, que  muito mais bonito.
Sara o pensou um momento.
-Est bem. A verdade  que me acostumei a cham-la de Jessie eu tambm.
Cal a abraou.
-Ests segura?
-Sim -respondeu ela, enredando os braos ao redor de seu pescoo-. Sabe uma coisa, Cal? O dia mais afortunado de minha vida foi o dia que quase te atropelo.
-O meu tambm -sorriu ele, apertando-a contra seu peito-. Chegou a minha vida quando mais necessitava e penso passar o resto dela te amando.
Sara ficou nas pontas dos ps para beij-lo nos lbios.
-J te disse que Jessie vai passar a noite na casa de seus pais?
Os olhos de Cal se iluminaram de paixo. 
-Ento, o que fazemos aqui? -sorriu, a puxando para a porta.
-Espera. O que vo dizer os convidados? Cal a olhou com seus olhos de cor prata. 
-Pensaro, senhora Tucker, que te quero e que no posso esperar um minuto mais para lhe demonstrar isso com...
Sara lhe tapou a boca com a mo.
-No perca o tempo falando. Vamos a casa.

Fim
